Afinal o cientismo não define os ateus

Uma das observações mais feitas aos ateus pelas pessoas que se dedicam à interacção entre ciência e fé é a de que o “cientismo” é a ideologia que esses mais aderem.

Grandes nomes do mundo da ciência associam-se ao cientismo como Stephen Hawking, Steven Pinker, ou nomes mais antigos como Francis Bacon, Descartes, Jean D’Alembert, Auguste Comte (pai do positivismo). E confesso que muito do que lia dos meus amigos ateus aponta nesse sentido e resolvi perguntar a um deles com quem costumo trocar ideas, o Ludwig Kripphal. A resposta foi surpreendente!

O que é cientismo? Existem 4 pilares e eis as respostas deste meu amigo quando lhe perguntei se concordava com estas afirmações.

P1. A única forma de conhecer a realidade é através do método científico.

”Não. ‘Método científico’ é o nome que se dá ao conjunto de técnicas que permitem criar conhecimento explícito da realidade da forma mais fiável que conhecemos. Não é um dogma fixo mas trabalho em curso e serve apenas para o conhecimento explícito, aquele que podemos codificar em palavras, equações, narrativas, explicações, etc. O conhecimento implícito (e.g. saber andar de bicicleta ou conhecer o sabor do pastel de nata) é mais empírico e não exige a criação de modelos simbólicos explícitos.”

Ou seja, o conhecimento tácito (penso em Michael Polanyi), aquele que afirma sabermos mais do que pensamos saber, é uma forma diferente de conhecer do método científico. Penso que isto abre as portas para outros métodos ainda como o teológico (penso no Método em Teologia, de Bernard Lonergan). Aliás, a teologia dogmática surgiu para estudar os dogmas, não para estudar o modo de fazer os outros acreditar neles sem pensarem muito sobre isso.

P2. Só existe aquilo que a ciência consegue descobrir

“Não há razão para concluir que isto é verdade. Mas isso não justifica afirmar que algo existe só porque sim.”

De facto, ninguém pode dizer que Deus existe só porque sim. Penso que seja nisto que o Ludwig esteja a pensar e eu concordo inteiramente com ele. Muitas das ideias que as pessoas têm sobre Deus podem estar erradas ou assentes em terreno pantanoso. Daí advém a importância de aprender teologia, mas se também essa se reduz a um conjunto de conceitos muito elaborados que poucos conseguem entender, não serve de muito. Se há divulgação científica para ajudar qualquer um de nós a compreender melhor conceitos complexos em ciência, o mesmo acontece para a teologia através de livros de espiritualidade. Henry Nowen é um dos meus preferidos.

P3. Apenas a ciência pode responder às nossas questões morais e explicá-las, assim como substituir a ética tradicional.

A ciência é a forma mais fiável de gerar modelos conceptuais explícitos da realidade. Isso não resolve todos os problemas da ética, porque a ética exige escolha além de conhecimento, mas não pode ser descurado pela ética, porque não podemos escolher adequadamente sem conhecimento.

Subjacente a esta resposta está a preocupação genuína de que uma escolha ética seja feita com base naquilo que conhecemos e não num wishful thinking. Conhecendo um pouco o Ludwig, e outros como ele, como para estes ateus a teologia não produz conhecimento, não encontram sentido para que uma ética possa ter um enquadramento religioso. É claro que isso não é bem assim porque – e só posso falar pelo Cristianismo – o enquadramento religioso provém de uma experiência de vida milenar a partir de Jesus.

Os ensinamentos que um Homem-Deus nos deixou perduram ao fim de pouco mais do que 2000 anos. São ensinamentos que valorizam o ser humano e orientam a acção em prol da felicidade do outro. O conhecimento não é somente dado pelo método teológico, mas sobretudo pelo método experiencial de uma fé que leva as pessoas a ser sensíveis ao mundo em seu redor e as leva a agir pelo bem dos outros. A própria entrega pessoal a causas humanitárias impulsionada pela fé religiosa leva ao conhecimento de causa que se traduz no agir ético. Por muito que pensemos a ética, enquanto essa não se traduzir em vida, pouco efeito produz.

Por fim…

P4. Apenas a ciência pode responder às questões existenciais e explicá-las, bem como substituir a religião.

A ciência não substitui a religião porque a ciência serve para criar conhecimento explícito e correcto da realidade e a função principal da religião, enquanto estrutura social para regular crenças infundadas, é a de manipular as pessoas. Dizer que a ciência pode substituir a religião é tão incorrecto como dizer que a ciência pode substituir a publicidade. No entanto, quer a religião quer a publicidade podem ser mais eficazes se se alinharem com o que sabemos de psicologia e sociologia, e isso é evidente em ambos os casos. O que não quer dizer que seja desejável ter coisas destas muito eficazes…

Bom. A razão para que o Ludwig seja da opinião que a ciência não substitui a religião é a de que a religião regula crenças infundadas e manipula as pessoas. Pergunto a ti que lês e és crente. Não tens pensamento próprio? Sentes-te manipulado? Alguma vez condicionaram as tuas escolhas?

Eu não me identifico com esta afirmação. Não quer dizer que não haja quem procure regular crenças infundadas e manipular pessoas no âmbito religioso. Mas isso acontece também em ciência. Há crenças sobre a forma de descrever cientificamente a realidade que são infundadas e há também gente a manipular a vida das pessoas em ciência.

Depois, a comparação entre religião e publicidade. De facto, hoje, o marketing e a publicidade começa a voltar-se para aquilo que as pessoas precisam e ir ao encontro das suas necessidades. Ainda, há uma linha crescente de dar, dar, dar e só depois apresentar um produto que as pessoas são livres de comprar ou não. A convicção é a de que a formação da opinião da pessoa sobre o produto não é com base numa manipulação psicológica, ou sociológica, mas antes com base na sua experiência pessoal com outros produtos do mesmo criador.

O paralelo com o âmbito religioso pode levar a uma visão limitada da religião, mas os traços gerais de: ir ao encontro do outro e daquilo que ele precisa; fazê-lo assegurando a sua liberdade e o respeito pelas suas escolhas; e estar disponíveis a fazer uma experiência de profundidade com o outro; são tudo aspectos importantes para uma experiência religiosa insubstituível pela ciência.

DESCOBERTA

Afinal, por estas respostas, o cientismo não define os ateus como eu e muitos outros pensávamos. Mas ainda há muito a dialogar para limpar as mentes ateístas de falsas visões da experiência religiosa. Esse papel cabe aos crentes.

Não tenham medo de dialogar com os não-crentes. O objectivo deles parece ser o de abalar a nossa fé, e ainda bem. Só uma fé inconformada e que não se acomoda pode realmente ser aprofundada. Com os não-crentes percebemos melhor o que não faz sentido porque não corresponde à nossa experiência e, assim, consolidamos essa experiência.

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