Incompatibilidades… ou não

tsunami

Fizeram-me num comentário uma questão interessante que gostaria de adaptar, uma vez que estava dentro de um diálogo.

Se Deus é o criador de todas as coisas através do amor, não seria de esperara que impedisse uma criança de ser morta num desastre natural, ou um ataque terrorista de acontecer?

Se o fizesse, não seria uma negação da contingência no mundo que nos faz realmente livres?

Se Deus é Amor, por definição não é associável a qualquer causa de mal. O problema aqui é … permite? Há quem diga que Deus permite alguns eventos para um bem maior. Mas é difícil olhar para isso na situação de uma criança morta por um tsunami por dois motivos. Primeiro, se Deus permite, quer dizer que podia não ter permitido? Isso resulta numa visão maquiavélica de Deus, um manipulador da história e nós os seus fantoches, o que é incompatível com a visão de um Deus-Amor. Segundo, se Deus não intervém porque não pode, significa que, afinal, não é omnipotente? Bom, neste caso, como afirmei, a omnipotência não está na força de impôr, mas no amor. Logo, a questão desafia a nossa ideia de omnipotência em Deus.

Mas penso que seja necessário ir mais a fundo. John Polkinghorne fala de uma “Natureza de Processo Livre”. Ou seja, disso inferimos que Deus, seu Criador, deseja uma natureza íntegra, cuja história se desenvolve no ritmo próprio. Um tsunami é o resultado de um processo natural, explicado fisicamente pela teoria tectónica de placas, e faz parte da história evolutiva do nosso planeta. O resultado desse processo pode ser bom ou não, mas essa avaliação restringe-se apenas ao “nosso” ponto de vista.

Partilho uma história que pode ajudar a entender o que quero dizer. É uma história chinesa.

“Era uma vez um agricultor chinês. Um dia, um dos seus cavalos fugiu. Os vizinhos vieram até ele, comentando como aquele acontecimento era um infortúnio. O agricultor respondeu: “veremos”.

No dia seguinte, o cavalo que fugiu voltou, trazendo com ele sete cavalos selvagens. Os vizinhos apareceram novamente, e disseram que isso era uma grande sorte. O agricultor respondeu: “veremos”.

Depois disso, o filho do agricultor tentou domar um dos cavalos selvagens e caiu, quebrando uma perna. Os vizinhos vieram lamentar o sucedido, dizendo que aquilo era muito má sorte. O fazendeiro respondeu: “veremos”.

No dia seguinte, os oficiais do exército estavam a recrutar soldados e apareceram na quinta do agricultor, mas não levaram o seu filho por causa da sua perna partida. Os vizinhos vieram ter com o agricultor comentando como aquilo era ótimo, e ele respondeu: “veremos”.”

A contingência pode resultar num bem, ou num mal. Como raramente temos em cada evento uma visão global de toda a história que daí se desenrolará, afirmar que uma criança morta por um tsunami é simplesmente mau (que sem dúvida, é), não nos permite perceber quais as reais implicações disso. Seria preciso história para o entender. Se Deus interviesse como muitos ateus desejariam, viveríamos num mundo sem liberdade de construir a sua própria história com e sem Deus. Daqui a concluir que Deus simplesmente não existe é a melhor explicação, além de ser fácil demais responder assim, num mundo permeado de uma crescente complexidade, eu diria… veremos.

A nossa dificuldade está mais em aceitar fazermos parte da história do universo, com tudo o isso implica, do que aferir a existência de Deus com base no facto de Deus ter criado um universo que constrói, na liberdade, através de processos livres, a sua própria história. Preferias viver num universo que não constrói a sua própria história? Preferias que alguém construísse a tua própria história de vida? Deseja ser livres, mas quando as coisas não correm bem, não estamos disposto a pagar o preço do nosso desejo. A incompatibilidade existe, mas não é entre Deus-Amor e uma criança que morre num tsunami. A incompatibilidade está entre exigir sermos livres e não aceitar “eticamente” fazer parte da história do universo.

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5 thoughts on “Incompatibilidades… ou não

  1. Pingback: Protagonistas da história do mundo da pior maneira | Diálogo entre Ciência e Fé

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