Isomorfismo

O diálogo entre ciência e fé não é trivial. Enquanto que uma explicação científica procura ser lógica e racional e, por isso, mesmo que as pessoas não a entendam realmente, acreditam nela, porque é científica, o mesmo não acontece com uma explicação teológica. As explicações teológicas são remetidas para a crença pessoal de cada um, logo, não são universalmente racionais ou lógicas, como a ciência, pois não podem ser verificadas por pessoas com crenças diferentes. Porém, será assim tão irracional que explicações científicas e teológicas interajam?

Quando Jesus se queria fazer entender alguma coisa sobre Deus usava parábolas. E nessas parábolas recorria a eventos muito práticos e que tinham a ver com a racionalidade e lógica da vida das pessoas no concreto do quotidiano. Quando os cientistas querem levar os outros a entender teorias complexas usam imagens, um pequeno video animado, ou uma experiência palpável muito simples, e que facilita muito a compreensão dos conceitos. Por vezes, na simplicidade de algumas experiências está a verdadeira arte na ciência.

No fundo usamos metáforas quando queremos transportar (metaphérō) o significado de uma coisa para outra, ainda que uma coisa nada tenha a ver com a outra. Ou usamos analogias quando alguma coisa possui semelhanças em relação a outra. Mas em ambos os casos – metáforas e analogias – são as entidades que se comparam. O problema surge quando não há comparação possível entre as entidades consideradas. É aí que surge a vantagem de usar isomorfismos.

Descobri a amplitude deste conceito enquanto lia Bernard Lonergan, sacerdote jesuíta, filósofo e teólogo. Diz Lonergan que

“dois conjuntos de termos, digamos A, B, C … e P, Q, R … são isomórficos se a relação de A com B for semelhante à relação de P com Q, a relação de A com C semelhante à relação de P com R, a relação de B com C semelhante à relação de Q com R, etc. Isomorfismo supõe diferentes conjuntos de termos; não afirma ou nega as semelhanças entre os termos de um conjunto em relação a outros conjuntos; mas afirma, sim, que a rede de relações num conjunto é semelhante à rede de relações em outros conjuntos” (B. Lonergan, Collection, University of Toronto Press, 1988, p. 133)

Um exemplo. Quando ensino os meus alunos a fazer um balanço de energia, de um modo geral, digo que se equilibra a variação de energia no interior de um sistema com as trocas energia que ocorrem na fronteira (refiro também a taxa de geração interna de energia, é claro …). Mas a um dado momento sinto a necessidade de lhes dar uma imagem com a qual possam facilmente relacionar e, assim, ajudá-los a não esquecer como se faz um balanço de energia. Costumo usar a seguinte: ”…é como aquilo que faz de nós pessoas coerentes. Ou seja, pessoas que equilibram o seu interior, com aquilo que passam para o exterior através da fronteira do seu corpo.” A palavra “equilíbrio” é a que valida o isomorfismo.

Uma explicação científica não é o mesmo que uma explicação teológica, mas da mesma forma que um escrutínio de dados pode resultar numa hipótese sobre a qual podemos aplicar o método científico para a validar ou não; também um meditar uma experiência de fé pode resultar numa hipótese sobre a qual podemos aplicar o método teológico para a validar ou não. Acontece, por vezes que uma explicação científica ajuda a purificar uma experiência de fé, aprofundando-a. Ou então, que uma experiência de fé dê sentido e significado à procura de uma explicação científica que descreve o mundo que nos rodeia.

“E quando se contradizem?” – podem perguntar.

Bom, isomorficamente, da mesma forma que foi preciso criar a mecânica quântica para perceber a razão de um fotão poder comportar-se como onda ou partícula, o que antes era uma contradição, também aqui é preciso criar novas linguagens, termos, experiências a um nível de interpretação da realidade diferente que esclareça o que a determinado nível parece ser contraditório. Em suma: é preciso imaginação!

Advertisements