Mãe Terra?

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Recentemente ouvi a experiência de um leigo missionário que se referia à mãe Terra. E quantas referências não houve a seguir a essa confirmando o uso da expressão. Mais tarde, ouvi outra pessoa que citou G.K. Chesterton sobre esse chamar de mãe à terra. Dizia Chesterton que “a questão principal do Cristianismo era esta: a natureza não é nossa mãe, a natureza é nossa irmã. Podemos-nos orgulhar da sua beleza, pois temos o mesmo pai; mas ela não tem nenhuma autoridade sobre nós; temos de admirá-la, mas não imitá-la.” Curioso.

Será que Chesterton tem razão?

Bom, pensei na recente encíclica da Laudato Si’ do Papa Francisco. Recorda ele logo no n. 1 o Cântico das Criaturas de São Francisco «Louvado sejas, meu Senhor, pela nossa irmã, a mãe terra, que nos sustenta e governa e produz variados frutos com flores coloridas e verduras» e depois no n. 92 que “Tudo está relacionado, e todos nós, seres humanos, caminhamos juntos como irmãos e irmãs numa peregrinação maravilhosa, entrelaçados pelo amor que Deus tem a cada uma das suas criaturas e que nos une também, com terna afeição, ao irmão sol, à irmã lua, ao irmão rio e à mãe terra.”

E agora? Para São Francisco a Terra é mãe e irmã. Para o Papa Francisco não há qualquer problema em se referir à mãe Terra. Qual é, então, o problema de Chesterton? Eu diria que é a noção de mãe da época. Eventualmente a de uma pessoa que tinha autoridade sobre os filhos e a quem esses deviam imitar, ao passo que hoje a noção de mãe é mais próxima da de Maria. Em vez de autoridade, Maria dirige o nosso olhar para da verdadeira Autoridade, Jesus. Em vez de imitá-la, admiramo-la, pois ao cantar “quero ser como tu, como tu, Maria” estamos, de facto, a dizer que queremos ser e não parecer.

Como a Terra é parte do Universo, e esse é a linguagem através da qual Deus nos fala, contemplar a Natureza pode levar-nos a fazer uma experiência de Deus, da Sua presença. Logo, dirigindo o nosso olhar para Deus. Por outro lado, não faz muito sentido imitar a natureza, quando – de facto – somos natureza. Neste sentido, admirar a natureza não é dissociável de fazer uma experiência da presença de Deus através dessa. E assim se completa o ciclo, dando sentido e significado à expressão “mãe Terra”.

“O que fazer à interpelação de Chesterton?”

Atualizar. “E isso significa …?” Não sobrevalorizar o papel materno ao fraterno, nem o fraterno ao materno, pois, não descurando que a Terra é nossa irmã significa reconhecer que todos fazemos parte da “família da criação” e

só incluindo o mundo natural

podemos alguma vez tornar real

o ideal

de uma fraternidade universal.

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