Hipotética Consonância

Uma das preocupações daqueles que procuram perceber melhor a existência de Deus é explorar hipóteses que possam ser avaliadas perantes as evidências. Um dos aspetos que me parece importante nesta abordagem é ter a maturidade de não pressupor o resultado antes de compreender bem a análise feita.

Lembro-me de tê-lo feito num artigo e de ter chegado à conclusão de que o resultado proveniente de uma abordagem estatística Bayesiana, que analisa em que sentido se devem mover as nossas crenças numa determinada hipótese perante as evidências, é inconclusivo. Porém, isso significa que a aplicação direta da estatíca para averiguar hipóteses como “Deus existe” pode não ser a melhor abordagem.

Mas quer isso dizer que devemos pôr os conceitos estatísticos de lado no diálogo entre ciência e fé?

Wolfhart Pannenberg fala de “consonância hipotética” em ‘Toward a Theology of Nature’ dizendo que “o conhecimento científico do mundo natural … é o conhecimento acerca daquilo que Deus criou. Existe apenas uma realidade, a realidade da criatura criada por um Deus criador. Hipoteticamente, o conhecimento adquirido acerca do mundo natural deveria contribuir para aquilo que sabemos de Deus, e, por outro lado, o que sabemos de Deus deveria influenciar a forma como compreendemos o mundo natural. A tarefa agora é explorar as várias disciplinas procurando possíveis cruzamentos, pontos em comum e complementares. Esta tarefa dá-nos uma razão para colocar cientistas de mente aberta e teólogos em conversação uns com os outros. A consonância hipotética não nos leva de novo a uma competição perde-ganha, mas sugere antes a tentativa de passar bolas através da rede, como no vólei, para ver como reage o outro lado.

Parece-me interessante este excerto, sobretudo pelo facto de colocar de lado a ideia de competição e centrar antes o diálogo entre ciência e fé numa partilha de ideias e experiências sobre o assunto. Sempre que uma tentativa de diálogo no âmbito da ciência e da fé resvala para a abordagem competitiva, o resultado é sempre o mesmo: nulo. Pois, há uma baixa apetência de ambas as partes para que um queira aprender algo com o pensamento e experiência do outro.

“o conhecimento ganho acerca do mundo natural deveria contribuir para aquilo que sabemos de Deus”Algo em linha com a consideração do universo como uma linguagem através da qual Deus nos fala.

“o conhecimento ganho acerca do mundo natural deveria contribuir para aquilo que sabemos de Deus“Esta ideia expressa bem o que dizem João Paiva e o falecido Alfredo Dinis: “mais ciência, melhor religião”.

Os conceitos estatísticos são importantes na medida em que mantêm a nossa mente aberta ao inesperado. Algo profundamente Cristão, no sentido em que, de Deus, devemos sempre esperar o inesperado, pois Ele nunca nos deixa de surpreender.

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