A Luz que existe mas não se vê

Este excerto do livro de Tomas Halik (Paciência com Deus, traduzido em português pelas Paulinas) recordou-me algumas conversações com alguns que se dizem agnósticos, ou mesmo ateus, e que exigem evidências objetivas – e bem – para que hipóteses de natureza teológicas possam ser testadas. Pois, se forem impossíveis de testar, então, são de descartar. Não sou desta opinião, mas enfim …

Qual é a evidência objetiva de que a luz existe quando não podemos observar a luz diretamente? Não!? Então se olhar para um candeeiro, não estou a observar a luz diretamente? Nem por isso. Vejo um filamento incandescente amarelo, ou um tubo que brilha no branco, mas em cada fonte de luz estão contidos diversos comprimentos de onda, logo, ainda que pareça estar a observar um desses, o que observo é antes o objeto por eles iluminado, não a luz em si mesma. Vejo o efeito da luz, não a luz em si mesma. Mas, e se usar um laser com um comprimento de luz bem definido. Ainda assim, se não houver partículas de poeira no ar, sou incapaz de visualizar essa luz. 

Como poderia ser diferente com Deus? Qualquer evidência objetiva de Deus, ou melhor, da sua acção, será sempre de natureza indireta. O problema aí pode ser apenas daqueles que se formatam a si mesmos num só tipo de evidência, de tal modo que procuram Deus em algo próximo dessa formatação, quando Ele está na proximidade em si mesma. Procuram evidências, quando Deus pode estar no evidenciar em si mesmo. Procuram hipóteses possíveis de testar, quando Deus pode estar no “hipotizar” em si mesmo.

Como diz Halik, e bem, nenhum de nós viu a sua face, senão num espelho. Assim, também não podemos observar a face de Deus, senão indiretamente. O desafio não está na forma de o fazer, mas em suplantar os pressupostos filosóficos que nos impedem disso.

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One thought on “A Luz que existe mas não se vê

  1. Críticas de Imprensa:
    «O teólogo checo Tomáš Halík procura os sinais de um diálogo difícil em torno do cristianismo de hoje: a questão é saber que Igreja querem os crentes.»
    Bruno Vieira Amaral, in revista LER

    «Halík não perde tempo com os ateus belicosos. Em vez disso, desloca a sua atenção para os humanistas seculares e para os espiritualmente inquietos que não se reveem na «religião organizada».»
    Bruno Vieira Amaral, in revista LER

    «“Paciência com Deus” apela precisamente a largar certezas, a sair da zona de conforto, a, no mínimo, permitir que o desconhecido possa vir ter connosco, com as consequências que daí podem advir – como, por exemplo, pôr em causa parte das nossas “verdades”.»
    Filipe Messeder, in além-mar

    «T. Halík escreveu uma obra de teologia, num estilo pouco habitual. Os grandes teólogos que ajudaram a elaborar os textos do Vaticano II e a lançar a teologia em novos horizontes já são raros e idosos. Não admira que seja saudada uma teologia que continua a apresentar-se com perguntas antes de respostas feitas e que incita o pensamento a caminhar pelo mundo do desassossego, das interrogações e dúvidas, o território onde se vive a “paciência de Deus”, desse Deus que interrogou o interessante Zaqueu desta obra: “A fé – se for uma fé viva – tem de respirar; tem os seus dias e as suas noites. Deus não fala apenas através das suas palavras, mas também através do seu silêncio. Fala às pessoas não só através da sua proximidade, mas também do seu afastamento. Tu esqueceste-te de escutar a minha voz nos que experimentam o meu silêncio, a minha distância, nos que olham do outro lado, do vale de trevas, para o monte do meu mistério, escondido numa nuvem. Aí é que me devias ter procurado. A esses é que devias ter acompanhado, fazendo-os aproximar-se um pouco mais do limiar da minha casa. Era essa a porta especialmente preparada para ti.”»
    Frei Bento Domingues, in Público

    «T. Halík escreveu uma obra de teologia, num estilo pouco habitual. (…) Não admira que seja saudada uma teologia que continua a apresentar-se com perguntas antes de respostas feitas e que incita o pensamento a caminhar pelo mundo do desassossego, das interrogações e dúvidas, o território onde se vive a ‘paciência de Deus’ (…)»
    Frei Bento Domingues, in Público

    «[Este livro] é um suave diluente das certezas eclesiásticas reconstruídas, de modo estridente, nos anos 80-90 (…). Recupera, com mansidão, a memória interdita dos ‘padres operários’, o sentido da teologia da libertação, os caminhos ocultos de deus na sociedade secular ocidental, sem se perder nas disputas e desavenças entre ‘conservadores’ e ‘progressistas’. (…) O tecido desta obra é construído por tudo o que tem sido desvalorizado, ocultado, marginalizado ou desfigurado na apologética eclesiástica (…) O que realmente o preocupa é (…) o tempo de escuta e de atenção a quem anda por outros caminhos, por carreiros e lugares ‘mal frequentados’. O próprio Jesus tinha sido acusado de andar em más companhias.»
    Frei Bento Domingues, in Público

    «O livro Paciência com Deus não pretende ser nenhum manual de viagem. É um testemunho, muito reflectido e documentado, de uma grande peregrinação, atenta a tudo o que encontrou pelo caminho, sem dar lições.»
    Frei Bento Domingues, in Público

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