A interpretação fundamentalista da Sagrada Escritura

Da Exortação Apostólica de Bento XVI “Verbum Domini” que esclarece (mais uma vez) que a interpretação literalista da Sagrada Escritura pode constituir uma “traição” ao seu sentido.

44. A atenção que quisemos dar até agora ao tema da hermenêutica bíblica, nos seus diversos aspectos, permite-nos abordar o tema – muitas vezes aflorado no debate sinodal – da interpretação fundamentalista da Sagrada Escritura.[145] Sobre este tema, a Pontifícia Comissão Bíblica, no documento A interpretação da Bíblia na Igreja, formulou indicações importantes. Neste contexto, desejo chamar a atenção sobretudo para aquelas leituras que não respeitam o texto sagrado na sua natureza autêntica, promovendo interpretações subjectivistas e arbitrárias. Na realidade, o «literalismo» propugnado pela leitura fundamentalista constitui uma traição tanto do sentido literal como do espiritual, abrindo caminho a instrumentalizações de variada natureza, difundindo por exemplo interpretações anti-eclesiais das próprias Escrituras. O aspecto problemático da «leitura fundamentalista é que, recusando ter em conta o carácter histórico da revelação bíblica, torna-se incapaz de aceitar plenamente a verdade da própria Encarnação. O fundamentalismo evita a íntima ligação do divino e do humano nas relações com Deus. (…) Por este motivo, tende a tratar o texto bíblico como se fosse ditado palavra por palavra pelo Espírito e não chega a reconhecer que a Palavra de Deus foi formulada numa linguagem e numa fraseologia condicionadas por uma dada época».[146] Ao contrário, o cristianismo divisa nas palavras a Palavra, o próprio Logos, que estende o seu mistério através de tal multiplicidade e da realidade de uma história humana.[147] A verdadeira resposta a uma leitura fundamentalista é «a leitura crente da Sagrada Escritura, praticada desde a antiguidade na Tradição da Igreja. [Tal leitura] procura a verdade salvífica para a vida do indivíduo fiel e para a Igreja. Esta leitura reconhece o valor histórico da tradição bíblica. Precisamente por este valor de testemunho histórico é que ela quer descobrir o significado vivo das Sagradas Escrituras destinadas também à vida do fiel de hoje»,[148] sem ignorar, portanto, a mediação humana do texto inspirado e os seus géneros literários.
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26 thoughts on “A interpretação fundamentalista da Sagrada Escritura

  1. Caro Miguel,

    Não é a leitura fundamentalista que recusa ter em conta o carácter histórico da revelação bíblica.

    É a leitura metamórfica que em determinadas alturas recusa carácter histórico da revelação bíblica… e noutras altura considera herético outra leitura que não a literal…

    cumprimentos,

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  2. O escuto da hermenêutica chega mesmo a ser paradoxal. A hermenêutica tem por base o Deus Hermes e defende o monoteísmo…

    Que sejam os arguntos abertos dos estudos da “hermenêutica” e não a “hermenêutica” per se utilizados na interprestação dos textos.

    O argumento que é que a hermenêutica que diz ou que o assunto é muito complexo e só os especialistas podem ter opinião é um argunto inaceitável. Os arguntos para as interpretações devem ser codificados para qualquer receptor. Assim até uma criança poderia perceber. Assim fazia Jesus… ou estarei errado?

    Cumprimentos,

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  3. Caro Anónimo,

    a hermenêutica define-se como a “interpretação do sentido das palavras” e nada tem a ver com Hermes ou o monoteísmo.

    Eu penso, antes, que a hermenêutica assegura que aprofundamos o significado daquilo que lemos com inteligência e não estou nada de acordo que seja apenas para alguns, mas deve, sim, ser para todos.

    Abraço

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  4. Caro Miguel,

    Mais uma vez parece que é apenas uma questão de etiologia que nos separa.

    Mas uma interpretação fundamentalista deve ser interessante uma vez que é fundamentada. Assim como uma interpretação radical, uma vez que procura a raiz das coisas.

    Cumprimentos,

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  5. Caro Anónimo,

    não creio que seja uma questão etiológica, pois quando extraímos as palavras do seu contexto corrente, parece-me antes uma falácia linguística. Poderia haver, eventualmente, uma divergência etimológica, contudo, importa sempre – parece-me – perceber se é uma divergência cujo aprofundamento nos permite juntos chegar mais perto da verdade ou não, o que não me parece ser o caso.

    Uma interpretação fundamentalista ou radical nem sempre é fundamentada (e.g. criacionismo) ou procura a raiz das coisas (e.g. radical como radicada numa ideia excluindo as restantes).

    Porém, o texto da Exortação Apostólica é bem claro: o literalismo bíblico deve ser evitado para não reduzir ou diminuir o valor da Sagrada Escritura.

    Abraço

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  6. Caro Miguel,

    Muito obrigado pela sua perspectiva.

    Deixo mais um desafio:

    Génesis 2,21-23

    “Então Javé Deus fez cair um torpor sobre o homem, e ele adormeceu. Tomou então uma costela da homem e no lugar fez crescer carne. Depois, da costela que tinha tirado do homem, Javé Deus modelou uma mulher, e apresentou-a ao homem. Então o homem exclamou: «Esta, sim, é osso dos meus ossos e carne da minha carne! Ela será chamada mulher, porque foi tirada do homem!»”

    Possiveil interpretação literal: Capacidade de clonagem e/ou capacidade de orgonogénese com alteração da embriogénese somática?

    Possível interpretação subjectiva:
    O homem é superior à mulher, porque foi tirada do homem. O homem tem a palavra e a mulher nada diz?

    Como interpreta?

    Cumprimentos,

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  7. Caro Miguel,

    Muito obrigado pela referência.

    Um texto interessante mas não responde às questões levantadas.

    Que interpretação? literal ou subjectiva? Ou ambas?

    Quais as consequências para a sociedade em termos de estatuto social dado ao gênero da pessoa?

    Cumprimentos,

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  8. Caro Anónimo,

    as questões levantadas não fazem sentido quando fazemos uma interpretação exegética dos Génesis, que é a mais coerente com a mensagem bíblica que encerra. Aliás, é aquela que mais nos permite viver e tornar vivas as palavras e o sentido que apontam relativamente à existência humana.

    As consequências são enormíssimas. Se o ser humano (Adamah) se descobre como ser-em-relação (Ish e Isha, ou seja adão – terra e eva – aquela que vem da terra, ou masculinidade e feminilidade), fora do sentido que o projecta fora de si para uma relação mais profunda com os outros, a mensagem do Génesis é que o ser humano se afasta daquilo que ele é, efectivamente, ou seja, imagem de Deus. Deus que é Trindade e, por isso, Pessoas-em-Comunhão.

    A mensagem dos Génesis evidencia o carácter ontológico relacional que nos faz ser “pessoa”, ou seja, que nos personaliza. Sugiro um outro post meu, um dos primeiros, aliás, e que está presente no livro que escrevi em self-publishing.

    Abraço

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  9. Caro Miguel.

    Muito obrigado pela referência.

    “as questões levantadas não fazem sentido quando fazemos uma interpretação exegética dos Génesis,”

    é verdade uma vez que são interpretações diferentes…

    “que é a mais coerente com a mensagem bíblica que encerra.”

    Não sei se é a mais coerente. É uma possível das muitas mensagens que a bíblia pode conter…

    Cumprimentos,

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  10. Mudam-se as palavras, permanece o espírito:

    É um dogma da Igreja!

    Os membros de Clero sabem, os leigos são ignorantes.

    A interpretação exegética é a melhor interpretação ( e é a nossa ).

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  11. Caro Anónimo,

    como justificas que o estímulo à interpretação exegética seja dogmática, quando me parece ser, precisamente, a sua antítese?

    Por outro lado, onde te veio a ideia de “Mudam-se as palavras, permanece o espírito” ser um dogma da Igreja?

    Abraço

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  12. Caro Miguel,

    “Mudam-se as palavras, permanece o espírito” ser um dogma da Igreja?

    Não será só da igreja mas do modelo de poder instituído. “É necessário mudar alguma coisa para que tudo fique na mesma”…

    Claro que não é a interpretação exegética, per se, mas é o pretenso domínio da “verdade” da mensagem “mais coerente”.

    Um texto pode várias vertentes de interpretação, várias implicações sociais e não uma única…

    Cumprimentos,

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  13. Caro Anónimo,

    aquilo de que estás a falar não é “dogma”, mas “tradição”. No essencial, como revelação de Deus em Jesus, essa mantém-se fundada nele e não em interpretações. Essas existem para nos ajudar a ser melhores Crstãos porque aderimos a Cristo como ideal da nossa vida.

    Assim, quanto ao pretenso “domínio da verdade”, isso não passa de um equívoco por experiência própria de leigo no relacionamento aberto e profundo que tenho tido com teólogos e filósofos.

    Um texto pode várias vertentes de interpretação, várias implicações sociais e não uma única…

    Ora, apenas afirmas isso porque no mundo actual a interpretação exegética o permitiu. Se não sabias, passas a saber 🙂

    Abraço

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  14. Caro Miguel,

    “Ora, apenas afirmas isso porque no mundo actual a interpretação exegética o permitiu.”

    Serei assim tão limitado?
    Mais uma vez os “ignorantes” são considerados incapazes que pensar e chegar a conjecturas, que com algum trabalho se converte em hipótese e com mais trabalho apresentar teses…

    Mas continuam as perguntas sem resposta:

    Possível interpretação literal: Capacidade de clonagem e/ou capacidade de organogénese com alteração da embriogénese somática?

    Possível interpretação subjectiva:
    O homem é superior à mulher, porque foi tirada do homem. O homem tem a palavra e a mulher nada diz?

    cumprimentos,

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  15. Mas podemos ir a outra passagem…

    Génesis 18,1-15

    10 O Hóspede disse:«No p´roximo ano virei ter contigo. Então a tua mulher já terá um filho». [..]
    11 Ora, Abraão e Sara eram velhos, de idade avançada, e Sara já não tinha menstruação.[..]
    14 Há, poreventura, alguma coisa impossível para Javé? Neste mesmo tempo, no próximo ano, Eu virei ter contigo, e Sara já terá um filho.

    Capacidade de inseminação artificial?

    cumprimentos,

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  16. Caro Anónimo,

    hoje o ignorante é aquele que pensa que sabe, mas cujo seu conhecimento se baseia na superficialidade da informação. Há um desafio claro ao aprofundamento de cada assunto, mas são poucos os que se dão verdadeiramente a esse trabalho.

    Capacidade de clonagem e/ou capacidade de organogénese com alteração da embriogénese somática?

    Nem uma coisa, nem outra e deixo a teu cargo a demonstração disso, ou do contrário.

    O homem é superior à mulher, porque foi tirada do homem. O homem tem a palavra e a mulher nada diz?

    O homem só é homem em relação com a mulher e a mulher só é mulher em relação com o homem, porque a mensagem inerente é a de que somos criados seres-em-relação, constituídos no amor e estruturados na reciprocidade. (ver Martin Buber, por exemplo). O ser “tirada de” pode ser interpretado do ponto de vista de ish e isha, tal como está no post meu que te indiquei, ou seja, nada tem a ver com superioridade.

    Capacidade de inseminação artificial?

    Em vez de especulares, sugiro que procures o trabalho exegético sobre esse assunto. O mundo é contingente, algo cada vez mais observado cientificamente e verificado teologicamente há muito tempo. Um milagre dessa natureza mostra como Deus desafia constantemente o ser humano e a sua visão do mundo porque pretende que ele chegue cada vez mais à verdade subjacente à existência. As palavras da Bíblia falam de existência e da relação do ser humano com Deus, e extrair de lá ciência é pura especulação, bem como redutor da mensagem que encerra. Caso contrário, gostava que mo demonstrasses se for do teu interesse.

    Abraço

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  17. Capacidade de clonagem e/ou capacidade de organogénese com alteração da embriogénese somática?

    Nem uma coisa, nem outra e deixo a teu cargo a demonstração disso, ou do contrário.

    Se retirarem os impedimentos éticos… Porque há impedimentos para o desenvolvimento de clonagem humana?

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  18. “As palavras da Bíblia falam de existência e da relação do ser humano com Deus, e extrair de lá ciência é pura especulação, bem como redutor da mensagem que encerra.”

    e extrair de lá ciência é pura especulação…

    Mas são apenas conjecturas… não é ciência…

    Mas são conjecturas com pés para andar… falta o investimento…

    Cumprimentos,

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  19. Caro Anónimo,

    se retirarem a orientação ética, pois ética não são impedimentos, a humanidade desorienta-se. Sem juízo ético, estamos perante a potencialidade de uma humanidade sem juízo. Não quem suporte convincentemente o argumento de anular a ética na ciência. Não é sequer conjectura.

    Se achas que extrair ciência da Bíblia como pura especulação é uma conjectura apenas, de facto, já não é mau, mas depreendo por isso que pensas o contrário?

    Abraço

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  20. Caro Miguel,

    Por favor, não fique com ideias erradas do que tentei dizer.
    Nunca tive a intenção de retirar a ética das actividades científicas.
    Apenas considerar que a investigação em clonagem humana é aceitável e deve ser financiada. Claro que dentro de uma ética responsável.

    Parece que existem muitas indicações de como fazer clonagem na bíblia, que pode ser confirmada ou desmentida… mas parecem ter essa capacidade. Não só na bíblia o alcorão também…

    Um pouco como construir a arca da aliança, uma tecnologia de electricidade estática com capacitador… muito interessante. Será capaz de servivir como aparelho de comunicação?

    Cumprimentos,

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  21. Caro Anónimo,

    a minha opinião sobre a clonagem humana é que exprime uma visão instrumental do ser humano incompatível com a sua dignidade como pessoa. Existem diversos filmes que mostram o perigo ideológico subjacente, como por exemplo, “A Ilha”. Neste caso, não vejo como a instrumentalização do ser humano pode ser fruto de uma ética responsável, mas se quiser estudar e explorar o argumento, tem – sem dúvida – interesse.

    Eu penso que na Bíblia não há qualquer ideia sobre clonagem, quanto mais não seja por ser algo que não fazia parte da cultura da época. Assim como, o exemplo da arca não se percebe muito bem. Em suma, não me parece muito sensato deduzir ciência da Bíblia, quando se devia deduzir uma escolha: Deus.

    É esse o conteúdo essencial e profundo que a Bíblia encerra.

    Abraço

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  22. Caro Miguel,

    “a minha opinião sobre a clonagem humana é que exprime uma visão instrumental do ser humano incompatível com a sua dignidade como pessoa.”

    O que acha mais verdadeiro?
    1 – Autoperpetuação como visão instrumental do ser humano e incompatível com a dignidade humana?
    2 – Trabalho humano sistemático em fábricas como visão instrumental do ser humano e incompatível com a dignidade humana?

    Cumprimentos,

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  23. E a interpretação com base na Caballah?

    Será que os Sefarditas tem mais informação?

    Os livros “extra” dos “iluminados” alteram a interpretação?

    Cumprimentos

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