Pe. Barron sobre o filme "Agora"

Sugiro (para quem souber inglês) esta análise do Pe. Barron que me pareceu muito interessante. Abaixo encontram a tradução da intervenção para português. No final desta opinião, o Pe. Barron fala de termos um testemunho correcto (record straight), o que contrasta com as diversas notícias que exageradamente têm deformado a opinião pública sobre o ministério sacerdotal. Tendo em conta esse contraste, e os erros no passado, o fundamental da vida Cristã do amor incondicional ao outro (amigo ou inimigo) no quadro da Morte e Ressurreição de Cristo mantém lúcida a opinião do Pe. Barron, que subscrevo, pois reconhecer a necessidade de pedir perdão (como aconteceu no caso de Galileu e outros) é manter esse testemunho correcto. Por outro lado, é frequente confundir ateísmo com ciência ou razão, de tal modo que a fé é remetida para algo irracional e superticioso. Isso, simplesmente, não é verdade e basta ter uma mente crítica para o entender. Não é no conflito que se avança no conhecimento e na vivência da fé, mas no diálogo fecundo da compreensão recíproca.

«Acabei de ver o novo filme, “Agora”, que é um re-contar da história de Hipácia, uma brilhante filósofa de Alexandria, que foi morta, supostamente, por uma multidão de “cristãos”, no ano 415. Juntamente com os contos de Galileu e Giordano Bruno, a lenda de Hipácia é uma das favoritas dos ideólogos anti-religiosos. A primeira vez que ouvi a história foi por Carl Sagan, um popular cientista cujo programa “Cosmos” em múltiplos episódios foi amplamente visto na década de 1970. “Cosmos”, de facto, chega ao seu clímax com o ensaio melodramático de Sagan da narrativa. Hipácia, explicou, foi uma cientista e filósofa que entrou em conflito com Cirilo, o ímpio bispo de Alexandria, que então despertou uma multidão de seguidores supersticiosos que condenaram Hipácia à morte. Sagan comentou: “a tragédia suprema era que, quando os cristãos chegaram a queimar a grande biblioteca de Alexandria, não havia ninguém para detê-los.” E só para gozar, ele disse, “e eles fizeram de Cirilo um santo”. Sagan conta que encontrou as raízes desta história na versão de Edward Gibbon na sua obra clássica profundamente anti-cristã The Decline and Fall of the Roman Empire (Declínio e Queda do Império Romano). Na verdade, Gibbon foi o primeiro a ligar o assassinato de Hipácia ao incêndio da biblioteca de Alexandria. O novo filme de Alejandro Amenabar permanece firmemente na tradição de Gibbon/Sagan, apresentando Hipácia como uma santa do racionalismo secular que desesperadamente reúne manuscritos da biblioteca antes de ser invadida por cristãos histéricos e que vai nobremente em direcção à sua morte, defendendo a razão e a ciência contra os avatares da superstição religiosa.

Bem, Hipácia foi realmente uma filósofa e foi realmente morta por uma multidão em 415, mas praticamente tudo sobre a história contada por Gibbon, Sagan e Amenabar é falso. Dê uma vista de olhos no livro de David Hart Bentley Atheist Delusions (Ilusões Ateístas) para o completo desmascarar do mito, mas permita-me partilhar apenas alguns detalhes. A biblioteca de Alexandria foi totalmente queimada, não por multidões cristãs no século V, mas pelas tropas de Júlio César, cerca de quarenta anos antes de Jesus nascer. No local da antiga biblioteca foi erguido um templo ao deus Serapis, chamado de Sarapeon (e poderia haver alguns pergaminhos dentro dele no século V), e foi este o edifício saqueado por cristãos irritados no tempo de Hipácia, em resposta às violações pagãs das casas de culto cristão. Agora repare, eu não estou a desculpar os cristãos nem por um momento. Sempre que os cristãos respondem a estes ataques com violência estão a opor-se a quem disse: “Amai os vossos inimigos” e “dar a outra face”. Mas estou, de facto, a insistir que a acusação de que os cristãos destruíram irracionalmente e alegremente o maior centro de aprendizagem no mundo antigo é uma calúnia.


Mais do que isso, Hipácia, tristemente, viu-se apanhada no meio de uma luta entre duas figuras poderosas em Alexandria, ou seja, Orestes, a autoridade civil, e o bispo Cirilo. Ela foi provavelmente morta como retaliação pelo assassinato de alguns dos partidários de Cirilo por agentes de Orestes. Novamente, tudo isto é feio, e não estou a tentar desculpar ninguém, mas para lançar esta história em grande parte política como uma batalha entre a doce razão e a superstição religiosa viciosa é, no mínimo, enganoso. Finalmente, embora o filme em grande parte a retrate como uma astrónoma (provavelmente para obrigar a comparações com Galileu), Hipácia era conhecida como uma filósofa neo-platónica, uma devota de Platão e Plotino. Ora, não só havia cristãos nas aulas de Hipácia, ou bispos cristãos entre o seu círculo de amigos, mas também teólogos cristãos, como Agostinho, Ambrósio e Orígenes, só para citar os mais proeminentes, foram entusiastas defensores do neo-platonismo. Portanto, para retratá-la como a campeã nobre da razão relativamente a, bem como contra, cristãos primitivos ofegantes é simplesmente ridículo.


Mas nada disso chega ao cerne do motivo pelo qual eu me oponho ao “Agora”. Numa das cenas mais visuais do filme, Amenabar eleva a sua câmera até um ponto muito alto, com vista para a biblioteca de Alexandria enquanto esta está a ser saqueada pela multidão cristã. A partir desta perspectiva, os cristãos aos olhos de todo o mundo são como baratas a correr. Numa outra cena memorável, o director mostra um grupo de bandidos Cristãos a transportar para longe os corpos mutilados de judeus que acabaram de condenar à morte, e compõe a cena de modo a que os corpos empilhados chamem vividamente à memória os corpos dos mortos em fotografias de Auschwitz e Dachau. A não tão subtil implicação de tudo isto é que os cristãos são tipos perigosos, ameaças à civilização, e que devem, como pragas, serem eliminados. Pergunto-me se alguma vez ocorreu Amenabar que o seu filme poderia incitar a violência contra as pessoas religiosas, especialmente os cristãos, e que precisamente a sua forma de crítica foi utilizada por alguns dos mais ferozes perseguidores do cristianismo no século passado. O meu real receio é que a avareza, meias-verdades e calúnias absolutas em livros como “Deus não é Grande” de Christopher Hitchens e “A Desilusão de Deus” de Richard Dawkins tenham começado a entrar na cultura popular.


Nós, cristãos, temos de resistir e continuar a manter o testemunho correcto.»

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