Podemos acreditar em Deus e na Evolução? (Ted Peters e Martinez Hewlett)

Portanto, se estivermos correctos e a ciência é, simplesmente, um método para descrever uma visão quantitativa do mundo que resulta em modelos testáveis, como é que todos se envolveram nesta confusão acerca da evolução? Qual é o problema?

 

Confundir Ciência e Filosofia

Muitas vezes falamos com cientistas e perguntamos-lhes acerca das suas posições filosóficas. Uma resposta muito comum é “Eu não tenho uma filosofia.” É claro, que nós chamamos a atenção que não ter uma filosofia é, de facto, uma filosofia!

Mas, chegando ao ponto essencial, a empresa científica possui, de facto, uma base filosófica, um conjunto de pressupostos e valores que sustentam o trabalho que é feito. Num capítulo anterior tentámos delinear o método da ciência. Este método pressupõe várias coisas: (a) que existe ordem na natureza, (b) que podemos, de facto, observar essa ordem, e (c) que podem ser deduzidos modelos que providenciam explicações naturalistas para os fenómenos ordenados que se observam. Tudo isto é tal que o método científico preocupa-se exclusivamente com o mundo físico, isto é, com o “tudo o que não é mente/espírito” de Descartes. Não há nada nesta decisão filosófica que impossibilita ou exclua a existência do não-físico ou do sobrenatural. Esta decisão provém de decisões anteriores, tomadas por cientistas sobre como proceder, qual o seu método ou abordagem.

A ciência moderna fez outra escolha metodológica. É mais fácil projectar experiências se nos focarmos em elementos do fenómeno, em vez de focarmos na complexidade do todo. Por exemplo, se quiseres compreender a célula num sapo, é relativamente fácil tirar uma célula e estudar os elementos que a constituem. O Marty [co-autor deste livro] é bioquímico e o seu treino em ciência foi sempre sobre os métodos para fazer isto e os tipos de modelos que podemos construir com os dados observados. Os filósofos chamam a este processo de aplicação de um método para estudar a célula, isolando as partes que a compõem, reducionismo metodológico. Neste caso, a ideia principal é que a ciência, de forma a ter um conhecimento maior da complexidade do todo, junta os blocos construtivos mais básicos que compõem esse todo. Por outras palavras, para compreender o todo, temos primeiro de entender as partes.

Agora, supõe que és um cientista a trabalhar nos elementos da célula. Tens modelos que explicam o comportamento das proteínas numa célula e até da sua genética em termos do ADN que se encontra no seu núcleo. De facto, a estrutura moderna da biologia está construída neste tipo de conhecimento da função de tudo o que vive. Podes pôr-te a pensar, “ei, esta é uma informação muito poderosa. Olha para o que eu consigo fazer com estes modelos em termos da geração de experiências. Sabes, talvez a forma mais válida de compreender uma célula seja em termos das partes que a constituem.”

Se fizeres desta afirmação uma parte da tua forma de pensar acerca dos sistemas vivos, fizeste uma escolha filosófica, não científica. O que fizeste foi tomar uma decisão sobre qual o tipo de conhecimento válido naquilo que diz respeito à célula e a toda a vida. Em filosofia, o estudo dos sistemas de conhecimento chama-se epistemologia. Escolheste ser um reducionista epistemológico. Repara que esta não é uma conclusão científica; não se pode provar ser falsa. Nada tem a ver com a observação, ou método, ou mesmo construção de uma teoria e de um modelo. Tem a ver com uma reacção filosófica aos processos e resultados da ciência.

Supõe que o teu trabalho com os elementos da célula te conduz à compreensão da sua química e até da sua física. É claro que isto era o que tinhas pensado atingir como objectivo. Mas isso deu-se há muito tempo e já não pensavas nisso. É fácil ver como podes ficar convencido de que os elementos da célula e os átomos que a consituem são realmente tudo o que diz respeito a tudo o que vive. Podes começar a pensar que a matéria do universo é, de facto, tudo o que existe; não há nada para além disso.

Em filosofia, o estudo da essência ou ser das coisas chama-se ontologia. Por isso, até aqui tomaste a decisão filosófica de ser um reducionista ontológico. De novo, esta não é uma conclusão científica. Recorda-te do nosso acordo – a ciência deve-se pronunciar sobre o mundo físico. Logo, concluir que o físico é tudo o que existe é um erro lógico grande – é um argumento circular. Isto é, decidiste olhar apenas para o que é físico e depois concluíste que isso é tudo o que existe.

No processo de tomar estas decisões filosóficas, é possível que tenhas começado a olhar para o conceito de Deus como supérfluo. De facto, uma vez que estás convencido que nada existe excepto o que é material, o próximo passo é concluir que Deus não existe. A esta conclusão chamamos de ateísmo. E porque aceitas apenas o que é material como real, tornaste-te num materialista ateu.

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