Comunhão e Serviço: a Pessoa Humana Criada à Imagem de Deus

5. “Imago Dei” e “imago Christi”


52. “Na realidade, o mistério do Homem só no mistério do Verbo Encarnado se esclarece verdadeiramente. Adão, o primeiro Homem, era efectivamente figura do futuro, isto é, de Cristo Senhor. Cristo, novo Adão, na própria revelação do mistério do Pai e do seu amor, revela o Homem a si mesmo e descobre-lhe a sua vocação sublime. Não é por isso de admirar que as verdades acima ditas tenham n’Ele a sua fonte e n’Ele atinjam a plenitude” (GS 22). Este famoso trecho da Constituição sobre a Igreja no Mundo de Hoje, do Concílio Vaticano II, serve bem para concluir este resumo dos principais elementos da teologia da imago Dei. Com efeito, é Jesus Cristo quem revela ao Homem a plenitude do seu ser, na sua natureza original, na sua realização final e na sua realidade actual.

53. Deve-se procurar as origens do Homem em Cristo: foi criado “por ele e em vista dele” (Cl 1,16); “o Verbo [que é] a vida […] e a luz que ilumina todo Homem e vem ao mundo” (Jo 1,3-4.9). Se é verdade que o Homem foi criado ex nihilo, também se pode afirmar que é criado da plenitude (ex plenitudine) do próprio Cristo, que é ao mesmo tempo Criador, Mediador e Fim do Homem. O Pai destinou-nos a ser seus filhos e filhas e a “serem uma imagem idêntica à do Seu Filho, de tal modo que Ele é o primogénito de muitos irmãos” (Rm 8,29). Assim, o significado de ser criado à imago Dei só é plenamente revelado a nós no imago Christi. Nele encontramos a total receptividade do Pai que deveria caracterizar a nossa própria existência, a abertura ao outro numa atitude de serviço que deveria caracterizar as relações com os nossos irmãos e irmãs em Cristo, e a misericórdia e o amor pelo outro que Cristo, enquanto imagem do Pai, mostra para connosco.

54. Assim como as origens do Homem se devem procurar em Cristo, também a sua finalidade. Os seres humanos são orientados para o Reino de Deus como para um futuro absoluto, a plena realização da existência humana. Como “todas as coisas foram criadas por ele e para dele” (Cl 1,16), encontram nele a sua direcção e destino. A vontade de Deus, que Cristo seja a plenitude do humano, deve encontrar uma realização escatológica. O Espírito Santo levará a bom termo a configuração última das pessoas humanas segundo Cristo na ressurreição dos mortos, mas já hoje os seres humanos participam desta semelhança escatológica com Cristo, aqui na terra, no tempo e na história. Através da Encarnação, da Ressurreição e do Pentecostes, o eschaton já está aqui; esses eventos o inauguram e o introduzem no mundo dos seres humanos, antecipando-lhe a realização final. O Espírito Santo opera de modo misterioso em todos os seres humanos de boa vontade, nas sociedades e no cosmos, para transfigurar e divinizar os seres humanos. Além disso, o Espírito Santo opera através dos sacramentos, de modo particular através da Eucaristia que é a antecipação do banquete celeste, a plenitude da comunhão no Pai, no Filho e no Espírito Santo.

55. Entre a origem do Homem e o seu futuro absoluto encontra-se a actual situação existencial do género humano, cujo pleno sentido também só se há-de encontrar em Cristo. Vimos que é Cristo – na sua Encarnação, Morte e Ressurreição – que restaura na devida forma a imagem de Deus no Homem. Prouve a Deus “… por Ele e para Ele, reconciliar todas as coisas, pacificando pelo sangue da sua cruz, tanto as que estão na terra como as que estão no céu” (Cl 1,20). No coração da sua existência pecaminosa, o Homem é perdoado e, através da graça do Espírito Santo, sabe que é salvo e justificado por meio de Cristo.
Os seres humanos crescem na sua semelhança com Cristo e colaboram com o Espírito Santo, o qual, sobretudo através dos sacramentos, os molda à imagem de Cristo. Deste modo a existência quotidiana do Homem é definida como um esforço de ser sempre, e cada vez mais, conformado à imagem de Cristo, procurando dedicar a própria vida ao combate para chegar à vitória final de Cristo neste mundo.

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