Questões de Fé – VII

Qual o significado da ressurreição da carne?

Uma boa pergunta e pertinente no diálogo ciência-fé. Não se pergunta o que é, mas quer-se saber o que significa. Porém, penso também que se deveria saber algo sobre o que é. Em primeiro lugar, senti necessidade de reler o texto de S. Paulo sobre o “modo da ressurreição”. Gostava de reescrevê-lo porque me parece ser teologicamente muito interessante:

«Mas dir-se-á: como ressuscitam os mortos? Com que corpo regressam? …O que semeias não volta à vida, se primeiro não morrer. E o que semeias não é o corpo que há-de vir, mas um simples grão, por exemplo, de trigo ou de qualquer outra espécie. É Deus que lhe dá o corpo, como lhe apraz; dá a cada uma das sementes o corpo que lhe corresponde. Nem toda a carne é a mesma carne, mas uma é a dos homens, outra a dos animais, outra a dos pássaros, outra a dos peixes. … Assim também acontece com a ressurreição dos mortos … semeado corpo terreno, é ressuscitado corpo espiritual. …Vou revelar-vos um mistério: nem todos morremos, mas todos seremos transformados; num instante, num abrir e fechar de olhos, ao som da trombeta final – pois a trombeta soará – os mortos ressuscitarão incorruptíveis e nós seremos transformados.» (1 Cor 15, 36-52)

S. Paulo fala de um corpo diferente e revela-nos um mistério: que seremos transformados. Gostaria de desenvolver esta reflexão com base num artigo de Denis Edwards sobre a acção não intervencionista de Deus em diálogo com Karl Rahner, cujo argumento centra-se precisamente no caso da Ressurreição (Theological Studies, 67, pp.816-833, 2006). Em primeiro lugar, segundo Rahner e segundo outros também, existe uma unidade fundamental em toda a Criação. Tal como ele diz e concordo “o universo material transcende-se a si mesmo na emergência da vida, e a vida transcende-se a si mesma no humano. Nos seres humanos, o universo abre-se à auto-consciência, liberdade, e relacionamento pessoal com Deus na graça.” Isto significa, relativamente ao evento de Cristo, que se for “considerado a partir de baixo, pode ser visto como a auto-transcedência do universo evolutivo em direcção a Deus.” Mas se o evento de Cristo for olhado a partir de cima, então “pode ser visto como a auto-doação irreversível de Deus à criação.” É importante a este ponto entender que a “vida de auto-doação de amor da criatura Jesus culmina com a sua morte, como um acto radical de amor por Deus e pelos outros”. Inclusivé, no grito do abandono precedente à morte na cruz (Mc 15, 34), está contida toda uma realidade de “perder-se, perdendo Deus por Deus” que penso não termos ainda descoberto o seu pleno significado. Porém, “no evento pascal [está o] … começo da transformação de todas as coisas.”
A experiência da Ressurreição da carne é sobretudo uma experiência feita por Jesus, mas “operativa na criação desde o início e que encontrará a sua plenitude na transformação de toda a criação.” A Ressurreição é a forma de Deus transformar, não só o ser humano, mas todo o cosmo. Ainda seguindo o Pde. Denis, “a experiência do Ressuscitado não é a experiência de uma intervenção a partir de fora, mas é um encontro com o mistério de Deus incarnado em Cristo, que ocorre nos, e através dos nossos encontros com as criaturas no mundo.” Por isso, a Ressurreição possui uma estrutura sacramental. Pensando nela como uma transformação, referido por S. Paulo como um mistério revelado , é importante salientar o seu impacto escatológico, ou seja, o seu impacto naquele “já mas não ainda”. Penso que a maior dificuldade está no facto de ser uma ressurreição não simbólica, ou acto puramente imaterial, mas da carne. Em consonância com as explicações científicas, e as evidências, “Rahner insiste que a nossa participação futura na vida da ressurreição será uma transfiguração do nosso ser espiritual, corporal e social, de uma forma completamente imprevista e inimaginável.” Como a ressurreição da carne é uma experiência transformadora do cosmo a partir do seu interior, nela reconhecemos uma nova criação de Deus, mas devemos, também, reconhecer, que não conhecemos a totalidade dos seus contornos. Saliento que este assunto é inesgotável e outros pontos de vista seriam, também, interessantes de incluir (e.g. a ressurreição da carne na Teologia do Corpo de João Paulo II), mas ficará para uma outra oportunidade.
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