O que me inspira

Fiquei recentemente interpelado por uma TED Talk de Simon Sinek sobre a razão pela qual os grandes líderes nos inspiram a agir. É o que Sinek chama de Círculo Dourado.

Todos podem saber o que fazem.

Alguns sabem como o fazem.

Muito poucos sabem porque o fazem.

O tópico da Ciência e Fé sempre fez parte da minha vida. Na escola, andava eu na catequese, um colega diz-me que "Deus é uma ideia inventada pelo homens para explicarem o que não conseguem." Não sei de onde ele teria "inventado" aquela ideia, mas foi o suficiente para eu acreditar nela, acreditar em Deus sem que a ideia fizesse mossa, e a partilhasse em casa, levando a minha mãe (recentemente convertida por uma experiência que fez de Deus) a deitar as mãos à cabeça. Foi aí que me convidou a participar em Grupos de Oração do Renovamento Carismático e o que me fascinou na primeira vez foi um ensinamento que ouvi sobre a Igreja. Não me lembro do conteúdo. Apenas “memorizei” o impacte que produziu em mim ”afinal a Igreja é isto…uau…”

Depois na escola, entrei num período fundamentalista, pois não percebia como seria possível alguém não acreditar em Deus. Dizia a uma colega ”a ciência e a fé são como duas pernas com as quais caminho. Se apenas ando com uma, ando coxo.” Ou seja, teria mais dificuldade em caminhar. A questão que não coloquei na altura foi: em direção a quê…? Se caminho, então, para onde quero ir?

Não fazia diferença.

A experiência de Deus através do sorriso de um deficiente levou-me a experimentar como Deus me amava, ou aquelas lágrimas após uma comunhão que não fazia a mínima ideia de onde vinham – ainda hoje não sei – davam-me uma certeza profunda e interior de Deus mais próximo de mim do que eu de mim próprio. São estas as experiências concretas, vividas, que gravaram no coração e inteligência a realidade de Deus.

Mas as coisas não iriam ficar por ali.

Faltava qualquer coisa.

Sempre adorei ciência.

Sempre amei a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a mim mesmo. Mas não percebia ainda a potência de quando colocamos estas duas realidades – ciência e fé – da nossa vida em diálogo. Até que um dia li um artigo.

O artigo falava dos modos de interação entre o conhecimento científico e o saber teológico. Estava escrito em italiano e li-o enquanto aprendia esta língua perguntando à minha esposa (tinha casado nesse ano) o que significava "quindi", "cioè", "magari”, etc. Foi divertido! Esse artigo tinha uma série de referências e uma delas estava à venda na Amazon por "tuta-e-meia" e não resisti. Quando chegou comecei a ler e devorei o conteúdo! Mandei vir outro, sempre em segunda mão por serem SUBSTANCIALMENTE mais baratos, e outro, e mais outro, e outro ainda. Um mundo abria-se aos meus olhos e fiquei a perceber como sabemos TÃO pouco sobre a potencialidade de colocarmos ciência e fé em diálogo. Eis o resultado. A minha biblioteca.

Mas um dia recebi uma notícia que me deixou perplexo e sem palavras.

Recebi um email de um GRANDE amigo (e ainda é), que me dizia ter deixado de acreditar em Deus porque a ciência explica tudo, deixando de ser necessária essa hipótese. “What!?!!” Depois de tanta coisa que tinha lido, sim, porque não se resumiu a livros, mas também a uma panóplia de artigos sobre o assunto. Depois disso tudo, alguém que me é próximo diz que, o que faço na vida – ciência – explica tudo e é razão necessária e suficiente para deixar de acreditar em Deus. Sinceramente. Não estava à espera. Não estou a falar de uma pessoa qualquer no âmbito da fé. Ele lia muito sobre espiritualidade, animava missas, dava catequese, orientava grupos de jovens, ou seja, era uma pessoa ativa na Igreja Católica.

Fiquei desolado, mas não derrotado. Muito pelo contrário, senti naquele momento que os tesouros que tinha descoberto não eram ainda conhecidos por todos e questionei se poderia fazer alguma coisa por isso.

Um dia, um outro grande amigo, ao partilhar-lhe o que estava a descobrir no diálogo entre ciência e fé, desafiou-me a começar um blog.

Este blog.

Pois é, se chegaste até este momento do post ficaste a saber o PORQUÊ de tudo o que encontras aqui.

Ficaste a saber de onde vem a ideia do livro que publiquei em Inglês.

Ficaste a saber o que me inspira…

Incompatibilidades… ou não

tsunami

Fizeram-me num comentário uma questão interessante que gostaria de adaptar, uma vez que estava dentro de um diálogo.

Se Deus é o criador de todas as coisas através do amor, não seria de esperara que impedisse uma criança de ser morta num desastre natural, ou um ataque terrorista de acontecer?

Se o fizesse, não seria uma negação da contingência no mundo que nos faz realmente livres?

Se Deus é Amor, por definição não é associável a qualquer causa de mal. O problema aqui é … permite? Há quem diga que Deus permite alguns eventos para um bem maior. Mas é difícil olhar para isso na situação de uma criança morta por um tsunami por dois motivos. Primeiro, se Deus permite, quer dizer que podia não ter permitido? Isso resulta numa visão maquiavélica de Deus, um manipulador da história e nós os seus fantoches, o que é incompatível com a visão de um Deus-Amor. Segundo, se Deus não intervém porque não pode, significa que, afinal, não é omnipotente? Bom, neste caso, como afirmei, a omnipotência não está na força de impôr, mas no amor. Logo, a questão desafia a nossa ideia de omnipotência em Deus.

Mas penso que seja necessário ir mais a fundo. John Polkinghorne fala de uma “Natureza de Processo Livre”. Ou seja, disso inferimos que Deus, seu Criador, deseja uma natureza íntegra, cuja história se desenvolve no ritmo próprio. Um tsunami é o resultado de um processo natural, explicado fisicamente pela teoria tectónica de placas, e faz parte da história evolutiva do nosso planeta. O resultado desse processo pode ser bom ou não, mas essa avaliação restringe-se apenas ao “nosso” ponto de vista.

Partilho uma história que pode ajudar a entender o que quero dizer. É uma história chinesa.

“Era uma vez um agricultor chinês. Um dia, um dos seus cavalos fugiu. Os vizinhos vieram até ele, comentando como aquele acontecimento era um infortúnio. O agricultor respondeu: “veremos”.

No dia seguinte, o cavalo que fugiu voltou, trazendo com ele sete cavalos selvagens. Os vizinhos apareceram novamente, e disseram que isso era uma grande sorte. O agricultor respondeu: “veremos”.

Depois disso, o filho do agricultor tentou domar um dos cavalos selvagens e caiu, quebrando uma perna. Os vizinhos vieram lamentar o sucedido, dizendo que aquilo era muito má sorte. O fazendeiro respondeu: “veremos”.

No dia seguinte, os oficiais do exército estavam a recrutar soldados e apareceram na quinta do agricultor, mas não levaram o seu filho por causa da sua perna partida. Os vizinhos vieram ter com o agricultor comentando como aquilo era ótimo, e ele respondeu: “veremos”.”

A contingência pode resultar num bem, ou num mal. Como raramente temos em cada evento uma visão global de toda a história que daí se desenrolará, afirmar que uma criança morta por um tsunami é simplesmente mau (que sem dúvida, é), não nos permite perceber quais as reais implicações disso. Seria preciso história para o entender. Se Deus interviesse como muitos ateus desejariam, viveríamos num mundo sem liberdade de construir a sua própria história com e sem Deus. Daqui a concluir que Deus simplesmente não existe é a melhor explicação, além de ser fácil demais responder assim, num mundo permeado de uma crescente complexidade, eu diria… veremos.

A nossa dificuldade está mais em aceitar fazermos parte da história do universo, com tudo o isso implica, do que aferir a existência de Deus com base no facto de Deus ter criado um universo que constrói, na liberdade, através de processos livres, a sua própria história. Preferias viver num universo que não constrói a sua própria história? Preferias que alguém construísse a tua própria história de vida? Deseja ser livres, mas quando as coisas não correm bem, não estamos disposto a pagar o preço do nosso desejo. A incompatibilidade existe, mas não é entre Deus-Amor e uma criança que morre num tsunami. A incompatibilidade está entre exigir sermos livres e não aceitar “eticamente” fazer parte da história do universo.

“Razões” irracionais

Em resposta ao meu caro amigo ateu Ludwig…

Alguns não crentes entendem como irracional a adopção de uma crença específica de um certo conceito de Deus. Porém, existem tantos conceitos de Deus que foram evoluindo ao longo dos milénios da história humana que meter tudo no mesmo saco pode ser uma opção intelectual que dá jeito. Caso contrário, dá muito trabalho perceber mesmo qual o conceito de Deus que, por exemplo, um Católico vive – sim, porque Deus vive-se, para além de se pensar. E mesmo pensando em Deus somente, sem qualquer recurso à teologia, um ateu facilmente se torna num treinador de café que opina sobre tudo o que o treinador da sua equipa deveria fazer, sem meter os pés em campo. Ou seja, corre o risco de fazer conversa fiada, mas enfim.

Depois, consideram irracional a inconsistência entre crenças associadas a religiões diferentes. Subjaz a questão: quem tem razão? Como se os que trabalham e dedicam o seu tempo ao diálogo inter-religioso se fizessem tal questão. Nem por isso. A diversidade é uma riqueza, não uma inconsistência. 

Ainda, no raciocínio que delineia no post, afirma-se que, o que é científico implica necessariamente a comparação com alternativas, tentando encontrar a melhor solução ou explicação. A resposta ao teste científico para encontrar a razão da possibilidade de uma pessoa ter uma ideia é comparar uma pessoa com uma torradeira (fartei-me de rir com esta…). Eu estava a pensar em Lonergan e na sua Magna Opus sobre o conhecimento humano, Insight, mas obras excelentes, rigorosas e claras como essa não fazem parte da biblioteca restrita do novo ateísmo.

Há algo que transparece naquele post. Quando nos referimos a questões de Deus é importante colocar a palavra “científico” para justificar como irracional qualquer conceito de Deus. Mas quando aplicamos a mesma abordagem a questões filosóficas como “ter uma ideia”, colocar científico torna-se um empecilho e resolve-se dizendo que essa palavra não está lá a fazer nada. 

Curioso…

Ainda, ao referir a questão “ter uma ideia”, automaticamente se associa que na realidade queremo-nos referir ao funcionamento do cérebro, como se para perceber uma ideia escrita num papel só mesmo sabendo como funciona a caneta com que a ideia foi escrita é que se chega lá. Mais me ri…

Depois, há uma ideia engraçada de que a interpretação de uma experiência de Deus é uma conjectura. Por isso, alguns ateus permitem-se a uma analogia entre uma experiência de Deus e a de um ataque epiléptico. Claramente se percebe que um ateu dificilmente teve uma experiência de Deus, mas conjectura sobre quem a teve. Uma conjectura é uma opinião, com fundamento incerto ou não verificado, ou seja, uma hipótese, presunção ou suposição, logo, não é uma experiência sequer. Quem conjectura, afinal, é o ateu.

A experiência de Deus é algo de muito concreto. Basta pensar no “Human experience of God” de Denis Edwards. Um evento que transforma profundamente a nossa vida, a forma de encarar a realidade à nossa volta, altera profundamente o nosso relacionamento com os outros e o facto de ser “de Deus”, significa que se faz a experiência de um sentido, significado e presença que não encaixa nos padrões humanos naturais. Quem a faz reconhece existirem diferentes níveis de compreensão da realidade, mas como alguns ateus se auto-bloqueiam a tal abordagem ao conhecimento, mantendo a sua mente fechada, têm muita dificuldade em perceber quem tem a mente aberta.

A crença em Deus é reconhecida como útil, mas não verdadeira porque não encaixa do quadro intelectual de alguns ateus que afirmam terem sempre alternativas melhores para explicar as coisas do que Deus, mesmo se nunca as fornecem, ou fornecem alternativas em que comparam alhos com bugalhos, por assim dizer. O problema é que o crente não precisa de invocar Deus como explicação para nada, mas viver Deus, ainda que alguns ateus insistam que invocamos Deus como explicação de tudo e mais alguma coisa, daí que dêem exemplos banais de torradeiras a ter ideias, semelhanças entre experiência de Deus e ataques epilépticos, ou crer em Deus porque dá jeito socialmente… Enfim, eu penso que estas perplexidades e interpretações incorretas daquilo que um crente pode afirmar são o fruto do imperialismo do cientismo sobre o pensamento ateísta que impede o ateu de chegar à ideia mais intelectualmente humilde e rigorosa cientificamente sobre Deus…

… “não sei”.

Caríssimo Ludwig e amigos ateus desejo-vos um Feliz Ano Novo 2017 🙂

Ludwig Kriphal, razões, no blog “Que Treta!”

 

Tanto tempo a discutir tão pouco…

Há quem pense que os que acreditam em Deus, em realidades espirituais, são pessoas irracionais que não pensam ou fazem uso da razão. Sinceramente, não estou a brincar, ainda há quem pense assim…

A afirmação não faz sentido quando olhamos para os diversos estudos, livros, revistas com arbitragem internacional, cursos universitários, doutoramentos, conferências internacionais, centenas de milhares de livros sobre ciência e religião. Se isto não expressa racionalidade, mas ficção, então, as pessoas que afirmam que um crente não faz uso da razão têm um sério problema psicológico.

O pensamento seguinte é: "não, um crente usa a razão, mas usa mal porque Deus é uma fantasia demasiado evidente". Também aqui noto que muitos ateus fazem afirmações como se fazê-las bastasse para que fossem verdadeiras. Não basta.

O problema é simples. Se eu acredito que apenas se considera real o que posso testar cientificamente, então, há muita coisa que irei considerar como ficção, mesmo que não seja. Por exemplo, ter uma ideia. Por que razão é possível ter uma ideia? Como justifico cientificamente ter uma ideia? E qual o método científico que me permite avaliar se o conteúdo dessa ideia a revela como uma ideia com conteúdo?

Eu tenho uma brincadeira com a minha mais nova que chamamos de "momento xubi-xubi". O diálogo entre nós resume-se a isto:

  • "Mapacuxibuximipi?" – pergunto-lhe.
  • "Melemapazipimeque." – responde-me.
  • "Ah! Mebezupimifizipi!" – exclamo eu.

E assim ficamos durante alguns minutos. Divertidos com um discurso irracional, mas que exprime momentos em que nos entendemos muito bem sem conteúdo nenhum. Como posso cientificamente avaliar o sentido e significado desses momentos? Expressam o amor entre pai e filha e não há nada cientificamente que me permita verificar que esse momentos são reais que não seja a experiência que faço deles.

A experiência.

O crente em Deus faz uma experiência de Deus. Entra em diálogo com Deus através do sentido e significado dos sinais da vida quotidiana. Um exemplo. A minha mãe não acreditava em Deus, mas tinha um colega que lhe falava de Deus Amor. Um dia de frio, no comboio, as portas demoravam algum tempo a fechar e, sabendo disso, quando viu uma senhora incomodada, procurou descansá-la dizendo que as portas se fechariam. Mas… não fecharam. A minha mãe experimentou um sentimento grande de vergonha pois as portas não fecharam. Nesse momento, pensou "Deus, se existes, arranja maneira de fechar aquela porta" Imediatamente a seguir, isto é, no preciso instante em que acabou de pensar, diríamos, de rezar, um senhor levanta-se e fecha a porta. Foi esse o momento da sua conversão. Fez a experiência de sentir-se escutada.

Os ateus vêem nisto uma casualidade e é. Mas a contingência presente na sequência dos acontecimentos mais normais que possamos imaginar pode dar sentido e significado à experiência que fazemos. O que impede o ateu de ver nesta experiência a presença de Deus é o limite que se impõe de que um acontecimento casual é apenas isso, casual. Mas isso não passa de uma opção filosófica. Se formos rigorosos, a única afirmação que podemos fazer é "não sei". Não sei se foi Deus ou se não foi Deus. Mas se foi Deus para ti, quem sou eu para afirmar o contrário?

A realidade possui diferentes níveis de compreensão. Não posso compreender o amor que sinto por alguém com base nas ligações sinápticas ocorrentes no meu cérebro, ou estudando as reações químicas hormonais. Não é o corte da tesoura que define o vestido, mas a direção impressa pelo estilista. Não é a ciência que define o seu traço original, mas a sua criatividade e sentido estético. A ciência é uma forma excelente de conhecer a realidade, mas não é a única e no discurso teológico encontro frequentemente um sentido e significado para diversas questões últimas que coloco como ser humano.

Há tanto para descobrir quando colocamos ciência e teologia em diálogo, que é uma pena perdermos por vezes tanto tempo a discutir tão pouco…

Explicações em Ciência e Religião

Um aluno com dificuldades na escola recorre por vezes a explicações, mas se o faz é porque reconhece a necessidade de ser orientado por alguém no seu estudo e com essa pessoa encontrar o método que mais se adequa a si.

Aqui não me refiro a explicações deste tipo, embora seja da opinião que a confusão sobre explicações relativas à realidade confundem de tal maneira o que pertence ao foro científico, com o que pertence ao foro religioso, que dar explicações em ciência e religião seria uma necessidade que só faria bem a uma pessoa!

A realidade é percepcionada por nós de diferentes maneiras, com diferentes níveis. Não podemos esperar que um adolescente leia uma fábula de La Fontaine e veja a moral da questão como se fosse um adulto, por exemplo, professor de literatura. Não. Vê uma história engraçada de um sapo que comia tanto para ser um boi que um dia rebentou. Quantos de nós comemos ideias mais do que devíamos, ou críticas mais do que somos capazes de aguentar, e rebentamos. Dependendo do grau de maturidade podemos dar explicações diferentes sem que estas entrem em competição. E isto porque, muito simplesmente, encontram-se em níveis de compreensão da realidade diferentes.

O mesmo se passa entre o que é natural e estudado pela ciência, e o que é sobrenatural e aprofundado na religião. Não posso esperar uma explicação científica de um evento singular de natureza religiosa, como não posso esperar uma explicação religiosa de um evento reprodutível de natureza científica. Porém, posso afirmar sobre o mesmo evento uma explicação científica e uma religiosa porque não estão ao mesmo nível de compreensão, mas em níveis diferentes.

Um exemplo. Posso acender uma vela e a explicação do senso comum é a de que não há luz elétrica e eu preciso de ver; a explicação científica envolve a combustão do pavio que liquidifica a cera, e esta vaporizando e misturando com o ar produz uma mistura combustível que queimada liberta energia manifesta pela luz; ou a explicação religiosa é a de que a luz da vela representa um sinal visível da luz de Deus no meio da escuridão. Não há competição, mas todas as explicações cooperam para uma visão mais total e integral da realidade.

Não há nada mais complicado e infrutífero do que meter tudo no saco de explicações da nossa zona de conforto. E, depois, meter tudo o resto que não entra nesse saco no vazio irrelevante que o circunda, descartando. Isso é agir com base no medo de que o mundo, afinal, não é a preto e branco, mas possui zonas cinzentas e escavando mais fundo, descobrimos ser um mundo a cores com infinitas tonalidades.

Penso que os ateus reconhecem existirem diferentes níveis de compreensão da realidade. Só não aceitam a compreensão religiosa do mundo como um desses níveis porque a sua a-religião não o permite. Se fossem mais rigorosos, como parecem querer ser com base no argumento que a explicação científica é sempre a melhor, a única resposta credível à questão da existência de Deus seria… não sei.

No Amor o Impossível

Hoje o sacerdote na missa das crianças disse algo muito interessante. Neste segundo domingo do Advento há um apelo à conversão. E aqui o mote.

Transformar o “eu” colocando um “D” do lado esquerdo e um “s” do lado direito. Logo, passar do “eu” a “Deus”.

De facto, quando converto uma unidade noutra, por exemplo, de metros a quilómetros, uso normalmente uma relação de escala. Neste caso divido por 1000, ou multiplico por 0.001. Em qualquer um deles converter significa adaptar a escala. Não é diferente numa conversão interior.

Um crente que pretende aprofundar a sua fé precisa de apreender a anular o seu “eu”, de modo a que “Deus” nele, e através dele, possa transformar o mundo por amor.

Então, e um não-crente? A conversão não tem sentido?

Eu penso que tem. Embora se manifeste de outra maneira.

Eu diria que um não-crente passa do “eu” ao “nós”.

Todos reconhecemos que um egoísta não vai longe porque é natural e evolucionário precisarmos uns dos outros. Embora Darwin tenha salientado a competição de espécies, são muitos os estudos que chamam a atenção para a importância (senão maior) da cooperação. Não é essa a experiência humana? Sozinhos até podemos chegar mais rápido, mas juntos vamos mais longe.

O “nós” do não-crente é entendido pelo crente como uma semente do Verbo.

O “Deus” do crente pode ser (como não sou não-crente não tenho a certeza) entendido pelo não-crente como uma semente de Humanidade, assumindo que o crente acredita num Deus-Amor.

O que é comum aos dois é que converter implicar transformar, e transformar é sempre uma oportunidade de melhorar.

O tempo de Natal tem a sua origem na celebração da fragilidade, esvaziamento, despojamento. A tradição, quer acreditemos ou não, é Cristã. Ou seja, está intrinsecamente ligada ao nascimento de um bebé, supostamente especial e inigualável. Nesse bebé, Deus fez-se frágil, esvaziando-se de Si mesmo, despojando-se de tudo o que é para potenciar o que nós poderemos ser.

E porquê?

Para quê?

Por amor.

Para sermos como Ele.

Se uma criança pode mudar a nossa vida fazendo de nós pais, não me admira que uma criança-Deus possa mudar o mundo. E não me refiro apenas à nossa história humana, mas também à lógica do mundo que mais do que ser conhecido, existe para ser amado. Assim como fizeram Teilhard de Chardin e Alfredo Dinis.

Que neste tempo saibamos descobrir como pode o lobo caminhar com o cordeiro. Ou seja, conseguir no amor o impossível. Basta um gesto concreto e expontâneo. É como uma pedra num charco. Desaparece e cria uma onda que se propaga. Contagia.

Inesperado

Há momentos na vida que nos surpreendem verdadeiramente e nos deixam perplexos. Vivi recentemente um desses. Uma grande amiga e confidente, a São Maia, deixou-nos e como a semente que lançada à terra se transforma, também ela junto de Deus levou o Céu a fazer festa.

Grande amiga – irmã poderia também dizer – porque na sua simplicidade e inteligência emocional sabia estar com cada pessoa e amá-la verdadeiramente. Não esqueço a alegria que ela e o Zé (seu esposo) me deram no dia do meu aniversário com a sua inesperada presença. Recordo com emoção esse momento. Uma alegria inesperada.

Confidente porque a ela (e ao esposo) confiámos, como família, os nossos sentimentos mais íntimos em relação ao que se passa connosco e à nossa volta. Confiámos quantas indecisões, para com eles fazermos uma experiência de luz que provém apenas da presença forte de Jesus no meio de nós.

Mas não sei o que possui maior perplexidade neste universo.

Se a vida. Ou a morte.

Conhecendo a São diria a vida, mas ela deixou-me perplexo com a sua morte. Os mundos da cultura e da família têm uma estrela brilhante no céu.

O inesperado.

A surpresa.

Deus.

Onde está Deus?

Há quem se pergunte neste momento, ou diga mesmo,

  • “Como pode Deus permitir isto?”
  • “Deus levou-a…”

Desculpem, mas tudo isso são incríveis disparates. Não há maior certeza do que a presença de Deus no mais íntimo daquele que parte.

Deus não permite, o mundo é que se revela a nós como limitado e a morte faz parte da nossa vida.

Deus não leva porque quem está junto d’Ele em vida permanece n’Ele na passagem que a morte é.

Porém, quando pessoas que são pilares da nossa vida partem, o que quererá Deus dizer com momentos destes?

A palavra que me ocorre é fragilidade.

A nossa vida está tecida com o fio frágil da nossa limitação material.

Mas o que surpreende também é perceber como Deus manifesta a sua Criatividade e Amor ao colocar no nosso caminho gigantes de humanidade como a humilde São Maia.

Todas as palavras sabem a pouco para aquilo que o coração gostaria de dizer.

Resta-me apenas uma coisa.

Fazer memória no silêncio, como Maria…

Lidar com a rejeição

Alguma vez foste rejeitado? Como lidaste com isso?

Há pouco tempo deparei-me com uma situação que considero de rejeição. Mas antes de a partilhar parece-me importante dizer que a rejeição não é má, nós é que temos dificuldade em lidar com ela.

Este Verão decidi lançar e re-lançar alguns livros e um dos modos de poder chegar a mais pessoas e criar um grupo de leitores foi oferecer exemplares em troca de um contacto de e-mail. Aqueles que aderiram a esta iniciativa sabem que eu não faço uso desse contacto para enviar muitos e-mails e tornar-me um spam. Porém, nos últimos dias ouvi algumas pessoas que me diziam

  • “Epá, ainda não consegui ler o teu livro.”

Hum… Confesso que se não mo tivessem dito, também não me teria lembrado de que lhes tinha oferecido um exemplar do eBook, mas com isso – de facto – fiquei a saber que não leram. A experiência que fiz do esquecimento foi de um certo desinteresse (pensamento que pode ser injusto, admito) e isso leva a uma impressão (que pode ser errada, admito) de ser rejeitado.

… bom, agora penso que tu, que lês este post, podes ser um dos tais que recebeu o livro e não leu, ou então leu e não gostou, mas por delicadeza não quis dizer.

Sabes, tudo bem.

Porque a rejeição é um motor de coisas grandes.

Quando nos vamos abaixo por sermos rejeitados, não é pelo momento em si que experimentamos isso, mas antes o “estado de alma” em que estamos e, por vezes, não nos damos conta disso.

A rejeição significa tanta coisa. Mas a mais importante é “fiz alguma coisa e posso sempre melhorar”.

Quem nada faz, não é rejeitado porque nada dá ao mundo que valha a pena rejeitar.

Sentir-se rejeitado é cair, mas depois levantamo-nos e continuamos em frente. Pois, mais importante do que as vezes em que caímos são as que nos levantamos.

Quem não é rejeitado pode cair no risco de pensar que pouco tem a melhorar, e se assim é fico feliz, mas triste também porque aprendemos tanto quando falhamos naquilo que fazemos. Uma das máximas da minha vida é “melhorar sempre”. Mas como é possível vivê-la, sem viver a rejeição?

No meu caso, como Cristão, não posso senão pensar no momento em que Jesus foi rejeitado, escarnecido, cuspido, humilhado, ferido pelos homens, e… abandonado. Por quem? Pelo Pai. Por Deus. Que paradoxo! Ele que era Deus é abandonado (rejeitado) por Si mesmo. Mas com isso dá ao mundo uma esperança tremenda de que não há rejeição que não possa ser identificada com Ele. Assim, quando sou rejeitado, essa rejeição é um ícone deste Jesus Abandonado. O que fazer perante Ele? Amar e continuar a fazer o que gostamos por amor.

A resiliência de quem sonha é a chave para superar a resistência em continuar a melhorar por se ter sido rejeitado.

Alguma vez foste rejeitado?

Ainda bem. Quer dizer que fazes alguma coisa e tens aí uma oportunidade de melhorar. Por isso, para todos os que ainda não leram os meus livros que ofereci, não se preocupem.

Eles contêm ideias que irão rejeitar.

Frases que irão rejeitar.

Gramática que irão rejeitar.

Mas ao rejeitá-las não estarão a rejeitar-me, mas pensem antes “ora aqui está muito espaço que ele tem para melhorar” e partilhem a vossa opinião, sem receio de serem rejeitados por mim ou pelos outros que a lêem. E se o forem, ainda bem, ora aí está uma oportunidade para melhorar 😉

Os 5 R’s

Num outro dia conversava com uma amiga acerca de ecologia. Há tanto que podemos fazer com tão pouco. Por isso, é com grande expectativa que desejo que o seu projeto chegue a bom porto. Mas no decurso dessa conversa referimos os famosos 3R's ecológicos

Reduzir | Rutilizar | Reciclar

Recordo-me das aulas de Energia e Ambiente na Universidade de falar que esta ordem de palavras exprime também uma ordem de precedências destas ações. Porém, achei muito interessante quando esta amiga falou-me num 4º "R".

Recusar

Lembrei de uma experiência no âmbito de um projeto Europeu de Aprendizagem ao Longo da Vida (os projectos Grundtvig) chamado Eco-Navigation onde partilhou-se que os alemães, como idealistas, preferem pagar mais por um produto que seja biológico e do qual conhecem a origem, do que um produto mais barato com menos qualidade. Podemos não ser idealistas como os alemães em termos culturais, e procurar sempre o produto mais barato nas prateleiras do Hipermercado, mas quer isso dizer que as nossas possibilidades financeiras limitam a nossa escolha? Se não podemos recusar o que é mau seremos realmente livres de escolher o melhor? De facto, não é fácil viver este recusar, mas também não me parece que a solução passe por serem as nossas possibilidade financeiras que determinam as nossas escolhas, mas antes a pouca ginástica da nossa criatividade.

Um exemplo. É evidente que cada vez mais pessoas compram comida pré-feita. De um momento para o outro essa secção cresce exponencialmente nos Hipermercados. Notaram? Será porque as pessoas não têm tempo para cozinhar? Ou imaginação? Basta ver programas como o Masterchef Australia, ou seguir críticos como o Matt Preston no Facebook para perceber como se pode fazer um prato excepcional com pouco e rapidamente.

Ou seja, Recusar nada tem a ver com uma postura negativa de protesto, mas uma atitude interior pró-ativa de pensar bem antes de consumir e estimular a criatividade humana que encontra por vezes soluções simples para desenvolver um estilo de vida mais ecológico.

Mas há um 5º R.

Relacionar

Proteger o ambiente, cuidar da Terra, não chega. Se não houver um relacionamento com o que pretendo proteger e cuidar, não desenvolvo a sensibilidade necessária para fazer a diferença. O desafio é: que relacionamento com a natureza?

Quando pretendo aprofundar um relacionamento com outra pessoa, o que faço? Passo tempo com ela. Interajo. Contacto-a para dialogar um pouco. Interesso-me.

Não é diferente com a natureza.

Passear pela natureza, interagir e contemplá-la, conhecendo-a através do deslumbramento que a ciência nos leva a experimentar, são modos de aprofundar esse relacionamento.

A cultura hodierna tecnológica e urbana configura o ambiente que nos circunda como centrado em nós próprios. Os jardins existem para eu os visitar, os animais são expostos para meu entretenimento, as pistas num parque são cuidados para que eu possa fazer neles exercício. Que noção de ambiente temos senão algo exterior a nós do qual cuidamos para poder usufruir? Um relacionamento com alguém ensina-nos a paridade, de tal modo que o outro não está acima de mim, mas ao meu lado.

O que significa um relacionamento de paridade com a natureza?

Como podemos encontrar o seu lugar nos nossos relacionamentos?

Se usufruímos da natureza porque essa faz-se "dom" para nós, como retribuímos sendo "dom" para a natureza?

Não penso que sejam questões fáceis de responder, mas se há algo que nos distingue (não separa) da natureza é a criatividade. Logo, a forma de encontrar respostas é simples.

Ser criativo 🙂