Não sei

Porque razão a ciência é usada como baluarte do ateísmo? Quando sou confrontado com o facto do ateísmo assentar na crença de que a ciência explica tudo, logo, não preciso de Deus para nada, fico desolado.

Porquê? Bom, é que fazer ciência faz parte do meu trabalho e não sou ateu.

Uma vez escrevi que o ateu é para a mim a prova da existência de Deus. A razão deve-se ao facto de acreditar num Deus que nos faz livres, logo, se não houvesse alguém que o rejeitasse no mundo, eu estaria em sérios sarilhos. Ateus havemos sempre de os ter, "graças a Deus"! O problema é justificar um ateísmo com base no conhecimento científico, como que fosse propriedades dos ateus, e não na "crença" que – simplesmente – realidades-que-tudo-determinam e que muitos chamam de Deus, não existem. Eu diria que não há justificação científica para o argumento de que o conhecimento científico mostra que o ateísmo é a via mais fiável para chegar à Verdade sobre a realidade do mundo. O que há é uma opção filosófica de vida.

Qual o papel da ciência neste diálogo com a fé. Aprofundá-la. Por isso uma pessoa sensível à religião deveria interessar-se por ciência e não ter medo da forma como descreve a história que se desenrola em nosso torno. O facto de descrever o mundo que nos pode levar a fazer uma experiência profunda da presença de Deus, não extrai o aspeto contemplativo a isso associado. Muito pelo contrário. Ao estudar o comportamento hidrodinâmico do impacto de gotas em superfícies, ou filme de líquido, apercebi-me como da interação entre gotas podem emergir estrutura hidrodinâmica que não surgiriam caso não houvesse interação. Isso mostra como é importante ter em conta a interação entre elementos para os descrever com maior precisão. Não é assim connosco e com o mundo? Sem interação entre as pessoas, vivemos num mundo isolado. Sem interação com o mundo, corremos o risco que começar a duvidar da nossa própria existência. A interação traz complexidade ao estudo do comportamento do impacto das gotas, traz complexidade à nossa vida quando interagir com o outro custa, mas sem interação não haveria espaço para a novidade que dessa pode emergir.

Em suma, se és crente, quando um ateu perante ti se apropria da ciência para justificar a sua "crença ateísta", não percas a oportunidade de lhe chamar a atenção de que a ciência é para muitos uma via para a contemplação de Deus. Não é por ti, mas por amor a ele. Cada ser humano faz na vida o seu caminho e não há nada pior do que fechar a nossa mente ao desconhecido com certezas que um dia mudam porque a ciência não é uma via de conhecimento estática, mas dinâmica. Talvez não conheçam o que se passa no meio científico, mas a expressão que faz os cientistas verdadeiramente felizes é quando lhes perguntam alguma coisa que têm de responder "não sei". Isso significa que há caminhos ainda a percorrer e não há nada mais entusiasmante do que isso …

Redescobrir o prazer de ler

Percurso_com_MOP_CoverAviso que é muito provável que não concordem comigo. Como sabem publiquei há algum tempo um livro com diversos textos que durante alguns anos fui escrevendo para uma revista associada ao Movimento dos Focolares, a Cidade Nova. São textos relativamente sucintos, pensados para um público-alvo que não necessita de ter uma cultura científica, e que se questiona sobre como podem ciência e fé interagir. Penso que são textos que contêm diversas pistas nas entrelinhas e estou certo que não deixará ninguém indiferente. Mais ainda, dada a diversidade de temas abordados, estou certo também que a interação entre ciência e fé passará a ter um outro sabor.

O livro é relativamente fácil de adquirir. Basta um clique e já está … ok, é preciso ter conta na Amazon ou iTunes, mas de resto é fácil. E nem sequer é caro … €0.99 … “qual é, então, o desafio à venda deste livro?”

“Bom … Está apenas em formato digital

e isso não entrou muito ainda em Portugal :(”

Argumentos comuns

  • “Não é a mesma coisa que o papel.”
  • “Já estou demasiado tempo no computador, logo, mais ainda? Não me parece.”
  • “Não tenho jeito para coisas electrónicas.”
  • “Não tenho tempo.”
  • “Não me parece que seja seguro andar a fazer compras pela net.”

… E tantos outros.

Será esta a questão?

Tudo argumentos válidos.

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De facto, um livro em formato digital não é a mesma coisa do que um livro em papel, onde sinto a textura da folha, a suavidade da capa, a facilidade de leitura, etc. Bom, é claro que se não tiver o livro comigo num tempo de espera inesperado, ou se não houver uma luz adequada, não terei possibilidade de ler. Depois, não é que possa alterar o tamanho da letra, ou o espaçamento entre linhas, mas enfim, isso é o menos. Se houver uma imagem, também não a posso aumentar para visualizar o pormenor, apenas aproximar-me da página caso a vista já não esteja boa. Ainda, assumindo que consigo desenrascar-me em sites de venda de livros como a Wook em Portugal, ou a Amazon ao nível internacional – hoje em dia – felizmente que existem serviços de correio que me enviam o livro para casa, logo, não estou dependente de existirem ou não exemplares numa livraria. E o pagamento pode estar associado a um cartão apropriado para compras na web e, pela minha experiência, é muito seguro. Os bancos notam todas as transações estranhas e entram em contacto connosco. É muito eficiente. Mas se não me entender mesmo com compras on-line, é verdade que nem sempre é possível deslocar-me a uma livraria, pois o maior problema é o tempo, mas posso esperar pelas férias…

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Há alguns desafios quando o tempo escasseia. Sempre que tenho um bocadinho para ler, não tenho o livro comigo, ou então sou interrompido e esqueço a linha da página (se não a própria página). É nesse momento que desenvolvemos algumas técnicas como usar um marcador do tipo post-it, um marcador de papel para a página e um post-it para a linha, ou dobrar o canto da página. Posso querer sublinhar, mas isso pode ser uma chatice do ponto de vista de quem irá ler a seguir. E chegados a este ponto questiono: “porque razão nos damos a tanto trabalho para ler?”

Dizem que “quem corre por gosto não cansa”. É verdade e o mesmo poderíamos dizer em relação a quem se dá a tanto trabalho quando lê, pois, ler dá tanto prazer que nos dispomos a muitos tipos de sacrifício. E se eu te dissesse que ler pode não dar tanto trabalho assim? E se todas as dificuldades que acima mencionei se tornassem, simplesmente, irrelevantes?

É essa a revolução do livro digital.

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Com um livro digital eu leio quando quero, onde quero, quanto eu quero. Se houver uma promoção fantástica (tipo: grátis!) numa obra que me interessa particularmente, adquiri-la fica à distância de um clique e posso começar a ler de imediato. E sim – se a vista já não é o que era, posso aumentar o tamanho de letra e alterar o espaçamento entre linhas; sim, posso aumentar imagens para ver pormenores e se o autor decidir incluir algo mais numa nova edição, basta atualizar o livro que comprei e voilá tenho acesso a essas alterações! Posso sublinhar e emprestar o livro a outrem, sem que isso perturbe a leitura do livro. Remover sublinhados é a coisa mais fácil. Computador!?! Nem pensar! Entre tablet e smartphone, é só escolher o que me dá mais jeito. Por vezes começo a ler no tablet sentado no sofá e continuo no smartphone se tiver que ir à padaria comprar pão. Estranho andar por aí com um smartphone na mão a ler? Nem por isso. Basta fazer uma viagem de Metro ou comboio e ver como são tantas as pessoas que se fartam de ler no smartphone. Desde notícias a e-mails, Facebook e … livros!

Com o formato digital, o livro expande e liberta-se da forma restrita a papel, podendo assumir diversas formas (incluindo a de papel). A questão está em que, libertos da forma, tudo o que resta, tudo o que verdadeiramente interessa é o que sobressai: ler! Daí que a redescoberta do livro digital tenha sido – para mim – a redescoberta do prazer de ler. Por isso é que tenho lido uma média de 8 livros por mês. Sim … fazendo tudo o resto.

Isomorfismo

O diálogo entre ciência e fé não é trivial. Enquanto que uma explicação científica procura ser lógica e racional e, por isso, mesmo que as pessoas não a entendam realmente, acreditam nela, porque é científica, o mesmo não acontece com uma explicação teológica. As explicações teológicas são remetidas para a crença pessoal de cada um, logo, não são universalmente racionais ou lógicas, como a ciência, pois não podem ser verificadas por pessoas com crenças diferentes. Porém, será assim tão irracional que explicações científicas e teológicas interajam?

Quando Jesus se queria fazer entender alguma coisa sobre Deus usava parábolas. E nessas parábolas recorria a eventos muito práticos e que tinham a ver com a racionalidade e lógica da vida das pessoas no concreto do quotidiano. Quando os cientistas querem levar os outros a entender teorias complexas usam imagens, um pequeno video animado, ou uma experiência palpável muito simples, e que facilita muito a compreensão dos conceitos. Por vezes, na simplicidade de algumas experiências está a verdadeira arte na ciência.

No fundo usamos metáforas quando queremos transportar (metaphérō) o significado de uma coisa para outra, ainda que uma coisa nada tenha a ver com a outra. Ou usamos analogias quando alguma coisa possui semelhanças em relação a outra. Mas em ambos os casos – metáforas e analogias – são as entidades que se comparam. O problema surge quando não há comparação possível entre as entidades consideradas. É aí que surge a vantagem de usar isomorfismos.

Descobri a amplitude deste conceito enquanto lia Bernard Lonergan, sacerdote jesuíta, filósofo e teólogo. Diz Lonergan que

“dois conjuntos de termos, digamos A, B, C … e P, Q, R … são isomórficos se a relação de A com B for semelhante à relação de P com Q, a relação de A com C semelhante à relação de P com R, a relação de B com C semelhante à relação de Q com R, etc. Isomorfismo supõe diferentes conjuntos de termos; não afirma ou nega as semelhanças entre os termos de um conjunto em relação a outros conjuntos; mas afirma, sim, que a rede de relações num conjunto é semelhante à rede de relações em outros conjuntos” (B. Lonergan, Collection, University of Toronto Press, 1988, p. 133)

Um exemplo. Quando ensino os meus alunos a fazer um balanço de energia, de um modo geral, digo que se equilibra a variação de energia no interior de um sistema com as trocas energia que ocorrem na fronteira (refiro também a taxa de geração interna de energia, é claro …). Mas a um dado momento sinto a necessidade de lhes dar uma imagem com a qual possam facilmente relacionar e, assim, ajudá-los a não esquecer como se faz um balanço de energia. Costumo usar a seguinte: ”…é como aquilo que faz de nós pessoas coerentes. Ou seja, pessoas que equilibram o seu interior, com aquilo que passam para o exterior através da fronteira do seu corpo.” A palavra “equilíbrio” é a que valida o isomorfismo.

Uma explicação científica não é o mesmo que uma explicação teológica, mas da mesma forma que um escrutínio de dados pode resultar numa hipótese sobre a qual podemos aplicar o método científico para a validar ou não; também um meditar uma experiência de fé pode resultar numa hipótese sobre a qual podemos aplicar o método teológico para a validar ou não. Acontece, por vezes que uma explicação científica ajuda a purificar uma experiência de fé, aprofundando-a. Ou então, que uma experiência de fé dê sentido e significado à procura de uma explicação científica que descreve o mundo que nos rodeia.

“E quando se contradizem?” – podem perguntar.

Bom, isomorficamente, da mesma forma que foi preciso criar a mecânica quântica para perceber a razão de um fotão poder comportar-se como onda ou partícula, o que antes era uma contradição, também aqui é preciso criar novas linguagens, termos, experiências a um nível de interpretação da realidade diferente que esclareça o que a determinado nível parece ser contraditório. Em suma: é preciso imaginação!

Biologia e espírito divino

Haverá um equivalente na biologia moderna à noção bíblica do espírito divino como a origem da vida que transcende os limites do organismo?

Na tradição bíblica, a vida não é uma função do organismo. Aquilo a que chamamos de espírito, não tanto consciência ou inteligência, é uma realidade misteriosa como a imagem usada por S. João sobre o vento

” vento sopra onde quer e tu ouves a sua voz, mas não sabes de onde vem nem para onde vai” (Jo 3, 8).

Ver a vida como algo que tem a sua origem numa fonte transcendente, ou seja, uma origem que está para além do espaço e tempo, é considerado pelos teólogos como um pressuposto indispensável para a esperança associada à ressurreição, ou seja, a nova vida após a morte. Wolfhart Pannenberg explica que

”só se a fonte da vida transcender o organismo é que será concebível que possa ser dada ao indivíduo uma nova vida que não esteja mais separada do espírito divino, a fonte da vida, mas unido permanentemente a ele como um corpo espiritual (1 Cor 15, 42-44)” (Toward a theology of nature, p. 23)

 

 

Esta visão cristã da vida não depende da cultura do momento, mas possui um carácter universal e perdura no tempo. Logo, se esperamos que contenha algo de Verdade intemporal, deveria – de algum modo – ter expressão nas verdades temporais, como são as da ciência biológica que procuram melhorar cada vez mais as descrições sobre o que é a vida.

Na biologia, um organismo não é interpretado como sendo exclusivamente um sistema fechado, mas aberto e sujeito ao seu ambiente. O ambiente é algo que transcende o próprio organismo e, no entanto, influi por fora tanto sobre ele, como a genética influi por dentro. Pensemos no conceito de morfogénese em Michael Polanyi.

Polanyi diz que a morfogénese é o processo pelo qual a estrutura dos seres vivos se desenvolve, semelhante à forma de agir de uma máquina como fronteira em relação às leis da natureza inanimada. Uma condição fronteira é sempre algo exterior a um processo e delimita-o.

Um exemplo. Quando Galileu fez as suas experiências com bolas a rolar por planos inclinados, o ângulo de inclinação não foi deduzido a partir das leis da mecânica clássica, mas escolhido por Galileu. Essa escolha é exterior às leis da mecânica. O mesmo acontece com as condições fronteira. São exteriores às leis envolvidas no interior dos sistemas. Logo, segundo Polanyi, como a estrutura das coisas vivas é uma composição de condições fronteira que balizam as leis que actuam nessas coisas, essa estrutura é exterior às leis da física e da química presentes em cada organismo. Em suma: a morfologia das coisas vivas transcende as leis da física e da química.

Diz ainda Polanyi que

“uma vez reconhecendo (…) que a vida transcende a física e a química, não há razão para suspender o reconhecimento do facto óbvio de que a consciência é um princípio que, fundamentalmente, transcende não só a física e a química, mas também os princípios mecânicos dos seres vivos” (Knowing and Being, p. 233)

As condições fronteira são as nossas condições de possibilidade. Enquanto o “acaso”, a aleatoriedade, são um espaço de oportunidade existente no mundo, as condições de possibilidade são o “campo morfogenético” que conferem sentido a esse espaço de oportunidade, de tal modo que nem tudo é possível de acontecer no mundo. Porém, esse “campo morfogenético” transcende o espaço de oportunidade e não depende dele. Daí que, concordando com Pannenberg,

“a descrição da evolução da vida em termos de uma teoria generalizada de campo deve ser extremamente sugestiva, uma vez que parece oferecer uma linguagem moderna que pode exprimir, possivelmente, a ideia bíblica de espírito divino como a potência da vida que transcende o organismo vivo e, simultaneamente, está intimamente presente no indivíduo.” (Theology of Nature, p. 24)

O inesperado que não volta atrás

Diz o teólogo que um mundo que procede de um acto criador de Deus implica que a sua existência como um todo, e de todas as suas partes, é contigente, no sentido de que não era necessário que existisse. Deve a sua existência a um acto de criação divina. Por outro lado, o universo desenrola-se numa sequência de acontecimentos, de tal modo que se constituem de processos irreversíveis, uma vez que Deus constrói com o mundo uma história única e irrepetível.

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De acordo com Wolfhart Pannenberg, “as leis da natureza parecem ao teólogo como produtos contingentes da liberdade criativa de Deus. A unidade de contingência e continuidade na atividade criativa de Deus, bem como os seus produtos, está enraizada, de acordo com a interpretação teológica do mundo, na fidelidade de Deus. (…) a forma futura da manifestação da fidelidade de Deus permanece imprevisível.

Um teólogo poderia, então, perguntar …

“Será que a realidade da natureza deve ser compreendida como contingente, e os processos naturais como irreversíveis?”

Sem dúvida! A aleatoriedade que alguns referem como acaso, indeterminação … ou contingência, faz parte da forma como o mundo evolui. Aliás, esse é um dos ingredientes da receita de Darwin em relação à evolução das espécies. Por outro lado, de acordo com a segunda lei da Termodinâmica, num sistema que compreenda o universo inteiro, um processo de transformação de energia leva sempre à formação de irreversibilidades, ou seja, há sempre uma parte da energia que não se recupera. Um exemplo. Se um copo se partir, mesmo que juntemos os cacos, fundirmos o vidro e voltarmos a fazer um novo corpo, com os meus processos e igual forma, nunca será o mesmo copo. Será sempre outro copo porque em todo esse processo geraram-se irreversibilidades. Isso quer dizer também que cada momento é único. Não volta atrás. O tempo tem uma seta.

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De alguma forma, contingência e irreversibilidade são um contraponto da uniformidade procurada em ciência quando desenvolvemos equações. As equações são a forma matemática de expressar relacionamentos reprodutíveis na sua essência, embora único na sua ocorrência. Pensemos num balanço de energia que por transmitir uma igualdade é um tipo de relacionamento que exprime reciprocidade.

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De um dos lados da equação está aquilo que se passa no interior do sistema. Do outro lado da equação está o que acontece na fronteira do sistema e influencia o interior. Connosco não é diferente. Numa pessoa equilibrada o seu interior é coerente com o exterior que, por sua vez, se manifesta nas fronteiras do olhar, sorriso, gesto, falar, etc. Porém este equilíbrio pode ser perturbado por eventos contingente, que não se estava à espera. Quer isso dizer que até o próprio Deus não sabia desses momentos?

Como o acto criador de Deus é um só, e manifesta-se de muitas formas, em diversos níveis de compreensão da realidade, Deus conhece todos os caminhos excepto aquele que escolhemos, ou que o mundo aceita por si mesmo. O “não saber” em Deus é uma escolha d’Ele, por amor, de modo a que o mundo seja plenamente livre, embora sujeito às condições de possibilidade.

E em relação à irreversibilidade? Não há possibilidade de corrigir opções menos felizes na nossa vida porque o mundo está permeado de irreversibilidades? Há. Tal como acontece com o copo … podemos sempre recomeçar. Recomeçar é ver tudo com olhos novos, não esquecendo o que houve antes, mas acreditar na oportunidade que se apresenta à nossa frente.

O problema teológico da inércia

Ask-The-Right-Questions-Estamos usualmente habituados a serem os cientistas que colocam questões difíceis à teologia. O que é bom para a teologia, uma vez que o avanço que qualquer ciência natural ou humana depende de questões difíceis. Por outro lado, estamos também habituados a que a ciência não beneficie de qualquer interpelação feita pela teologia, o que pode levar a uma visão da ciência um pouco fechada sobre si mesma.

Colocar questões é saudável. Sem questões, o conhecimento não avança. O problema pode estar no tipo de questões que se faz.

Pensemos, por exemplo, no problema teológico da inércia.

A ideia da Causa Primeira no pensamento de Ockham consiste em reconhecer a incapacidade da existência contínua das coisas ser auto-explicativa. Assim, isto exige a existência e atividade de uma Causa Primeira que lhes deu origem. Deus. Caso contrário, sem Deus (Causa Primeira), a realidade finita não poderia persistir. Aqui vem a ideia de um Deus cuja acção no mundo é permanente, caso contrário, em jeito “cartonizado”, se Deus se distraísse, o mundo poderia colapsar.

Ora, a ideia da auto-preservação associada ao princípio da inércia substitui a dependência da realidade física da atividade de Deus que criava continuamente. O princípio da inércia descreve a potencialidade inata da realidade física em persistir no tempo, em estado de repouso, ou em movimento, a não ser que seja perturbada por uma força.

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“Bom, se assim é … Deus pode “distrair-se” à vontade que o mundo não colapso por causa disso. Oops! Mas, então, isso pode querer dizer que o mundo não precisa da acção de Deus para persistir, certo?”

“Hum … “

“Mas isso pode querer dizer mais. Isto é, se encontrei uma explicação científica para o desenrolar de acontecimentos no mundo pela forma como os corpos interagem entre si, num jogo de forças que vai perturbando aqui e acolá a inércia, desacomodando os corpos, criando eventos e mostrando a existência de uma história, então, preciso da cooperação de Deus para quê?

“Espera … há a questão da Causa Primeira …”

“Não estou tão certo assim. É que se encontrei causas segundas naturais, posso admitir a possibilidade de encontrar uma ‘Causa Primeira’ natural, logo, é razoável pensar que o mundo não precisa, de facto, da cooperação de Deus para nada. Deus? Será que o mundo precisou alguma vez de alguém para o que quer que seja? É que a ciência tem-nos ajudado a perceber, começando pelas consequências do Princípio da Inércia, que é possível encontrar explicações plausíveis que não necessitam da acção de Deus como explicação, como no passado. Logo, a conclusão acaba por ser: se a cooperação de Deus é supérflua, talvez também a sua existência seja supérflua …”

Em suma: o princípio da inércia questionou a forma como Deus age no mundo e isso levou a questionar a existência de Deus. Mas, será que a interpretação do princípio da inércia como explicação para a auto-preservação do mundo estará correta?

Mais do que um universo feitos de corpos sólidos, subjacente ao princípio de inércia está um universo feito de eventos que fazem história. Porém, esses eventos são profundamente afetados pela contingência, ou seja, algo que poderia não acontecer, mas acontecendo produz efeitos irreversíveis. De facto, o mundo não se auto-preserva, mas evolui, é uma narrativa. O que é, então, a acção de Deus num mundo assim?

Há quem aponte para uma acção não-intervencionista, ou seja, Deus não viola as leis da Natureza para poder agir. Seria estranho que um Criador violasse o que criou para agir. Acontece é o nível de compreensão da realidade por onde age está para além da realidade física, entrando na metafísica. E a grande preocupação das pessoas está em saber como Deus age. Mas o problema é este, se soubéssemos como Deus age sem que Deus nos tivesse dado a conhecer, seríamos uma realidade maior que o próprio Deus. Seríamos Deus, pois – por definição – não há qualquer realidade maior do que aquela que designamos por … Deus. Assim, a acção de Deus acontece através da própria criação que evolui ainda. E como qualquer passo evolutivo implica relacionamentos, Deus age através dos relacionamentos. E tudo isto é possível por um envolvimento de Deus tal com as criaturas que está mais próximo delas do que elas estão em relação a si próprias.

A questão é: o que quer isso dizer na prática … Bom, é por essa razão que aprofundo o meu relacionamento com Deus através de uma experiência comunitária, e respetivos relacionamentos. Outros aprofundam esse relacionamento através da oferta da sua vida pelos outros em missões nas periferias existenciais. Outros através do estudo. Outros através da oração permanente. Não há limites à criatividade de quem procura um genuíno relacionamento com Deus. Aqueles que optam por recusar Deus, naturalmente, tendem a ter uma menor sensibilidade à Sua acção por via da sua opção de natureza filosófica. E, consequentemente, menor sensibilidade à Sua existência. Porém, a existência de Deus não é comprometida pela opções filosóficas de alguém, como a existência de alguém não depende das minhas opções filosóficas. Uma coisa é certa. Não fiquemos à espera que Deus viole a nossa escolha …

Mãe Terra?

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Recentemente ouvi a experiência de um leigo missionário que se referia à mãe Terra. E quantas referências não houve a seguir a essa confirmando o uso da expressão. Mais tarde, ouvi outra pessoa que citou G.K. Chesterton sobre esse chamar de mãe à terra. Dizia Chesterton que “a questão principal do Cristianismo era esta: a natureza não é nossa mãe, a natureza é nossa irmã. Podemos-nos orgulhar da sua beleza, pois temos o mesmo pai; mas ela não tem nenhuma autoridade sobre nós; temos de admirá-la, mas não imitá-la.” Curioso.

Será que Chesterton tem razão?

Bom, pensei na recente encíclica da Laudato Si’ do Papa Francisco. Recorda ele logo no n. 1 o Cântico das Criaturas de São Francisco «Louvado sejas, meu Senhor, pela nossa irmã, a mãe terra, que nos sustenta e governa e produz variados frutos com flores coloridas e verduras» e depois no n. 92 que “Tudo está relacionado, e todos nós, seres humanos, caminhamos juntos como irmãos e irmãs numa peregrinação maravilhosa, entrelaçados pelo amor que Deus tem a cada uma das suas criaturas e que nos une também, com terna afeição, ao irmão sol, à irmã lua, ao irmão rio e à mãe terra.”

E agora? Para São Francisco a Terra é mãe e irmã. Para o Papa Francisco não há qualquer problema em se referir à mãe Terra. Qual é, então, o problema de Chesterton? Eu diria que é a noção de mãe da época. Eventualmente a de uma pessoa que tinha autoridade sobre os filhos e a quem esses deviam imitar, ao passo que hoje a noção de mãe é mais próxima da de Maria. Em vez de autoridade, Maria dirige o nosso olhar para da verdadeira Autoridade, Jesus. Em vez de imitá-la, admiramo-la, pois ao cantar “quero ser como tu, como tu, Maria” estamos, de facto, a dizer que queremos ser e não parecer.

Como a Terra é parte do Universo, e esse é a linguagem através da qual Deus nos fala, contemplar a Natureza pode levar-nos a fazer uma experiência de Deus, da Sua presença. Logo, dirigindo o nosso olhar para Deus. Por outro lado, não faz muito sentido imitar a natureza, quando – de facto – somos natureza. Neste sentido, admirar a natureza não é dissociável de fazer uma experiência da presença de Deus através dessa. E assim se completa o ciclo, dando sentido e significado à expressão “mãe Terra”.

“O que fazer à interpelação de Chesterton?”

Atualizar. “E isso significa …?” Não sobrevalorizar o papel materno ao fraterno, nem o fraterno ao materno, pois, não descurando que a Terra é nossa irmã significa reconhecer que todos fazemos parte da “família da criação” e

só incluindo o mundo natural

podemos alguma vez tornar real

o ideal

de uma fraternidade universal.